Um estranho convite para uma festa em que o povo ficará de fora


Nessa última semana começou a circular pela rede um convite com dia, hora e local certo no Rio para uma conversa entre sociedade civil e Estado, a materialização do interesse do Governo Federal em “ouvir” as “lideranças” das manifestações, desde as jornadas de junho até hoje, com as suas insatisfações focadas na Copa do Mundo.

É improvável que algum ingênuo considere que o interesse do governo em escutar as queixas das manifestações, com praticamente UM ANO DE ATRASO, seja um desejo legítimo de entender os clamores populares pelas reformas políticas, administrativas e sociais necessárias para o desenvolvimento do país.

Parece muito mais óbvio se tratar da utilização da Máquina Pública numa pré-campanha eleitoral, já demonstrando algum desespero para melhorar a aprovação popular da já combalida presidenta, principalmente às vésperas de uma Copa do Mundo que tem exposto ao mundo o despreparo de um Brasil rico, desigual e incompetente na execução das obras e da fragilidade das cidades-sede como os celeiros das injustiças sociais e de explosões de violência estatal.

Em tempos de estado de exceção velado demonstrado por Lei Geral da Copa, de Lei de Segurança Nacional, de Lei de Organizações Criminosas, de Garantia da Lei e da Ordem, de projeto de Lei Antiterrorismo que criminaliza manifestantes, rumores da presença das forças armadas moçambicanas, considerada a mais violenta do mundo pela Anistia Internacional, para reforçar nosso exército na copa, além de um projeto de lei que autoriza o Chefe de Estado manter forças armadas estrangeiras no país sem crivo do Congresso Nacional, e o sancionamento federal para que a Guarda Municipal, uma guarda estritamente patrimonial, porte armas de fogo, e ainda a investigação federal de pessoas que atuaram nas manifestações contra a realização da Copa, nesses tempos, a tentativa de um diálogo tem causado no mínimo estranheza.

A reunião, além de muito atrasada e inócua, tem soado como uma verdadeira cilada para alguns convidados identificados pelo governo como lideranças de movimentos nas manifestações. Mais do que isso, em tempos em que colunistas de segunda categoria da imprensa marrom tem seus textos e factoides usados como base para inquéritos civis, e mais ainda, que cadastro da prefeitura do Rio é utilizada como prova para indiciamento em delegacia por crime de invasão, não é nem um pouco incoerente acreditar que o comparecimento à reunião seja utilizado contra os próprios populares que buscam de boa-fé o diálogo, como algum artifício de imputação criminal posterior, para impedi-los de se manifestar no período dos jogos. Ou ainda, num outro cenário, que a identificação de alguns como liderança sirva de plataforma política e captação de recursos públicos.

O Coletivo Carranca já se pronunciou, acompanhando as milhares de vozes pelo país, que não reconhece qualquer tipo de liderança e espera que a reunião que acontecerá no dia 28 de abril às 17 horas no auditório do sindicato dos bancários no Rio de Janeiro valha mais do que uma notória peça publicitária de campanha eleitoral para melhorar o moral partidário e para deixar contentes os poucos ricos brasileiros e estrangeiros que irão se beneficiar com a Copa, enquanto o povo, aquele que praticamente sozinho financiou o mega evento, amargará o prejuízo de estádios desnecessariamente bilionários, remoções forçadas sem plano de urbanização, repressão e perseguição às comunidades carentes, especulação imobiliária que enxotou os cariocas de seus bairros e um custo de vida atual que já reflete um prognóstico de caos no sistema público em pouco tempo.

Texto: Frons

Arte: Massashi Hosono

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Augusto Lima

Augusto Lima

Jornalista e escritor, também conhecido como Antuane Gestalt. Defensor da democracia participativa e das ruas como vias legítimas das verdadeiras transformações sociais.

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