AS BALAS ATRAVESSAM O TEMPO


Arte: Massashi Hosono / Foto: Redes de Desenvolvimento dá Maré
Arte: Massashi Hosono / Foto: Redes de Desenvolvimento dá Maré

Começou com as manifestações contra o Feliciano. Não, foi nas greves de alunos da USP. Talvez foi na época do Covas, quando ele acabou com as escolas técnicas. Ou será que foi nas greves do ABC paulista?

Pouco importa. No dia 24 de Junho de 2013, todo o meu histórico de mobilização social veio abaixo. Um convite simples, de papel xerocado, colado em uma ONG da Maré dizia: Não é por centavos, é por direitos, Praça das Nações, Bonsucesso, 24/06/2013, 18 horas. Tinha achado isso curioso, trazer o protesto para um bairro espremido entre o Complexo do Alemão e da Maré.

O protesto marcado para começar às 18 horas, deve ter começado no horário. Quando cheguei na Praça das Nações por volta das 18:30, o choque já estava enfileirado. Diferente dos outros protestos que tinha participado não via nenhuma pessoa de verde amarelo. Naquela época, os que iam com caras pintadas e bandeiras do Brasil ainda se protegiam atrás da polícia ao menor sinal de confusão. Então o cenário era esse. Contra o choque, um jovem que no papelão tinha escrito ‘JUSTIÇA’ e, ajoelhado, gritava palavras de ordem. Aquela fala durou pouco, o barulho dos cacetetes contra os escudos foi maior. O barulho do gás lacrimogênio e o seu cheiro foi pior. Ainda novato no Rio decidi ir embora, peguei uma van e voltei para a Maré. No percurso, pude ver garotos que corriam de um lado para o outro, em bandos; uns riam, outros chutavam coisas.

Voltei para casa cedo ainda, sem o que fazer fui à academia com o barulho de helicópteros ao fundo. Da janela pude ver a perseguição que era televisionada ao vivo, a Avenida Brasil parada com aquelas luzes amarelas e sendo invadida por carros da polícia e sirenes. Achei que fosse dar ruim. Decidi ir embora, no momento que sai da academia ouvi uma quantidade enorme de fogos sendo disparados. Apressei meu passo, mas fui ultrapassado por motos que corriam de um lado para o outro. Quando virei a esquina, para entrar no beco e chegar em casa, um grupo de 10 garotos do tráfico impunham, com olhos arregalados, fuzis, granadas e rádios. Escutávamos barulhos de tiro que pareciam vir de longe. Ninguém estava entendendo o que estava acontecendo, inclusive eu.
Sozinho em casa, fui percebendo o avanço da polícia, primeiro as crianças que entraram em casa aos gritos das mães, depois, a música do bar que parou e, por fim, o corte da luz. De repente, choro de crianças silenciados por barulhos de tiro, muitos tiros, que no fim viraram bombas de gás. Em um único beco: muito choro, muita bala e muita bomba.

Acordei no outro dia cedo, na rua, as senhoras varriam os estilhaços de vidro e cápsulas das bombas de gás da noite anterior. O percurso era acompanhado por cenas de uma guerra, carros e paredes com marcas de tiros, Caveirões andando de um lado para o outro. O resultado dessa incursão, dez mortos que não poderão relatar o que viram e nem como morreram.

Naquele dia, uma parte de mim foi embora. Naquele dia, virei inimigo daqueles que acham que morador de favela é preguiçoso, alienado. Desde aquele dia, toda vez que alguém falava que a truculência dos policiais nos protestos era o tipo de tratamento que era concedido aos moradores das ‘comunidades’ cariocas, eu me levantava. Não há isonomia no tratamento. Dizer que a classe média sofreu com os PMs do mesmo modo que os moradores das comunidades sofrem diariamente com ela é apenas tentar criar uma experiência comum, compartilhável. E é falsa.

Depois daquele dia, algumas pessoas me procuraram, queriam que eu escrevesse sobre isso, sobre as mortes, sobre os corpos no chão, sobre as bombas, sobre as casas banhadas em sangue. “Fale com as mães! Procure parentes!”. Não escrevi, não procurei. Não queria fazer as vezes de jornalista sensacionalista com toques literários. Daquele dia em diante entendi a função dos moradores da favela, corpos dóceis, que servem mesa de bar e limpam casas, corpos dóceis que devem ter o seu sofrimento exposto nas páginas de jornal, corpos dóceis que angariam projetos sociais, corpos dóceis que mantêm uma ‘cultura popular’. De uma manifestação em Bonsucesso que resultou em uma chacina, entendi o recado: lugar de favelado não é na política, não é reivindicando direitos e não é no asfalto.

Desde aquele dia, entendi meu limite como antropólogo, a minha experiência em comum com os moradores da favela é mínima, sem o histórico de opressão e cerceamento, sem ser negro e andar com o molejo da favela, sem isso, e muito mais, não há como dizer que tenho coisas em comum. Da minha experiência, desde então, as vezes me vejo refletindo sobre aquele garoto que ajoelhado em frente do choque gritava JUSTIÇA.

Foto: Redes de Desenvolvimento dá Maré

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Rui Massato Harayama

Rui Massato Harayama

Antropólogo, Colaborador da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. Ativista do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

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