Cada um na sua… luta


Thiago Firmino correndo o seu trecho na rua Jardim Botânico, RJ, 05/08/2016. Foto: Divulgação Rio 2016.

Primeiramente, fora patrulha ideológica.

Está cada dia fica mais difícil trocar ideia sobre qualquer assunto que encoste leve em ponto sensível da polarização, mesmo dos que se dizem não polarizados, mas convictos de que é ou de que não é golpe. Um comentário crítico ou diverso do pensamento do outro é capaz de inflamar o maior PhD e transformá-lo em um simples mal educado, daqueles sem argumentos, a pontapetear agressões e deboches. Tem pra todo lado. Criticam o xingamento à Dilma na Copa, vaiam Temer na festa de abertura dos Jogos, querem saber cadê as panelas a cada barbaridade brasileira, dizem que a ditadura e tortura são mentira comunista, o inferno na terra! E assim, conforme a conversa, lá se vão amizades, lá se vêm as decepções, pratica-se menos o debate e mais o bullying, como se não houvesse testemunha, print, nem amanhã.

Já não bastassem as formas oficiais de censura, aquelas clássicas de Estado, vivemos as contratuais, aquelas que nos sujeitamos ao aceitar os termos do Face com seu algoritmo ou um determinado trabalho que nos obriga ao sigilo, e aí, agora, aquelas da intolerância, as dessa guerra entre pessoas, porque ou nos atacam, ou temos que pensar mil vezes, antes, se vale a pena se expor ou se expressar.

A patrulha ideológica faz com que até alguns críticos da patrulha ideológica, embalados pelas incontestáveis injustiças que alicerçam a festa olímpica, julguem os que se divertem com ela. Num extremo para poucos, imagina a situação dos se orgulham de empunhar… a tocha! E num círculo de amigos que preferem ela bem apagadinha. É o caso do militante, guia de turismo, empreendedor no Dona Marta e motorista Uber, Thiago Firmino, morador e importante divulgador e defensor da comunidade. Partiu na sexta-feira (5), no ônibus da produção, ao lado do príncipe Albert, de Mônaco, recebeu a chama olímpica de Phumzile Mlambo-Ngcuka da ONU Mulheres Brasil, a família o prestigiou orgulhosa ao longo do percurso e nas redes, canais estrangeiros o procuraram para entrevista.

Thiago estava visivelmente emocionado, mas sua alegria encontrou a crítica. Em uma foto em que corre com a tocha na mão, ele postou: “Cheguei pra incomodar e criar pontes ao invés de muros.” Um comentário contestou sua coerência em relação a 2013 e sua resposta tangenciou o ‘cada um sabe de si’, ‘se preferir, me deleta’. Comentário e réplica desapareceram. Em sua defesa, no dia seguinte, um texto da antropóloga Hilaine Yaccoub:

 

Thiago Firmino com o príncipe Albert, de Mônaco. 05/08/2016. Foto: Divulgação Rio 2016.

Thiago Firmino com o príncipe Albert, de Mônaco, no ônibus ‘da produção’. Foto: Divulgação Rio 2016.

[...] senti uma emoção imensa quando vi o Thiago segurando a tocha olímpica. Assim como outros queridos, como a escritora Cris Guerra de quem sou amiga, o Ramon, irmão da Nalayne, e tantas outras personalidades de perto e de longe revelando sua emoção em participar de um evento grandioso de proporção mundial. Thiago (assim como muitos brasileiros) são conscientes da sua verdade, lida com a desigualdade social faz tempo, seja o asfalto da favela seja o asfalto da orla da praia. Thiago não é uma revoltado revolucionário de Facebook, foi mal aê. Thiago é o cara que coloca a boca no trombone que usa seu perfil das redes sociais para mobilizar e festejar sua favela, sua gente, seu trabalho. Achar que ele será menos favelado, sim eu vou usar esse termo porque eu posso, ou será menos militante, ou de alguma forma “se vendeu” ao sistema por estar feliz participando de algo tão representativo, sinto muito, mas sua visão é no mínimo estreita. [...] Thiago correu bonito, mandou o seu recado, representou a sua favela e sambou na cara da sociedade. Lindo! Lindo! Lindo!

No frigir dos ovos, não é crime se expressar. Não é crime se emocionar. Não é crime mudar de opinião ou ter uma.

Aproveita. Ainda não é.

Em tempo: sabemos que, indiretamente, essa ‘matéria’ faz propaganda. Não era a intenção e não ganhamos nada com isso.

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Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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