Diário de um artesão

O artesanato plástico e político de Alex Frechette em mais um livro da série Diários


O professor de artes Alex Frechette parece ter levado a sério a associação completa entre sua vida e seu trabalho. Artista de transformação gradual, como que lentamente descobrindo seu artesanato, Frechette está para lançar seu quinto livro da série Diários na Praça São Salvador, Flamengo, no dia 16 de Janeiro. Intitulado “Diário em progresso”, a obra, publicada pela editora Circuito e com prefácio do antropólogo e carranca Rui Harayama. A obra trata das percepções do autor sobre o contexto político e social do Brasil, com atenção especial ao Rio, durante novembro de 2013 ao final de outubro de 2014.

O sociólogo C. Wright Mills escreveu que ” quer saiba ou não, o trabalhador intelectual forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento de seu ofício”. Desde que Alex chamou atenção com seu já famoso “Manifestações Diárias”, suas obras tem gradualmente se desenvolvendo em uma série panorâmica sobre a política brasileira, em especial a asca política fluminense. Reflexões feitas a tinta, tecla e até ladrilhos.

Tal arquivo de obras, alem de empenhá-lo em uma experiência artística controlada que o permite lançar seu quarto livro em dois anos, também fortalece a arte política como um todo, tão em falta em um mundo cada vez mais asséptico culturalmente.
1-Alex, a gente pouco se conhece fora da dinâmica de protesto e etc. Pode me contar um pouco de sua vida? Onde e quando nasceu, cresceu, etc?
Sou de Niterói, nasci em 78 e dediquei grande parte de minha vida à música. Por conta de uma série de contingências fui abandonando-a gradativamente. Só de 2010 pra cá é que passei a empregar as artes plásticas como principal linguagem de trabalho mas elas sempre estiveram presentes de forma paralela, porém não privilegiada, na minha trajetória. Neste período a partir de 2010 fiz o que chamo de diários, séries que se utilizam-se de várias linguagens para tratar de diversos assuntos cotidianos.

2. Varias obras suas tem referências visuais diversas, que vão desde o cubismo, modernismo, impressionismo à pop arte. Sua formação artística me parece bem abrangente. Como se desenvolveu sua cultura artística?

Na infância já demonstrava uma certa afinidade com o desenho. Fui estimulado então a, na adolescência, fazer alguns cursos de desenho e logo em seguida fui cursar faculdade de pintura na UFRJ. Pouco antes disso já me interessava muito por música e achava que as artes plásticas eram algo que não representavam um desafio para mim. Assim fui tendo uma boa formação que na verdade resgatei mesmo algum tempo depois. No momento da faculdade não era tão dedicado assim.

3. Atualmente você atua como o que profissionalmente? E artisticamente, o que se considera? 

Sou professor de artes em duas escolas públicas de ensino fundamental e me considero artista plástico porque o termo “visual” pode ser muito restringente e é importante abrir a leitura, mesmo que pareça um tanto quanto óbvia, a uma investigação das propriedades sensoriais não visuais. Assim me sinto livre também para poder, por exemplo, trabalhar com som, ondas magnéticas ou mesmo apenas uma ideia que não tem como caminho a materialidade.

4. Como quase todos no Carranca, nosso fluxo político, se não nasceu nos protestos de 2013, pelo chegou ao seu horizonte de evento nesse período conturbado. Você já era ativo artística e politicamente antes disso ou não? Como foi esse processo para você?

Comecei a ficar mais atento a estes assuntos em 2011. Participei da minha primeira greve de professores e aí vi que tudo o que acontecia nas ruas era noticiado de forma muito diferente na imprensa. A partir daí comecei a fazer uns vídeos e assim a ficar alerta a outros assuntos de cunho social, ir a manifestações de outras naturezas que não somente às ligadas a educação e em 2013 senti que apenas a minha presença não bastava e iniciei a série “Manifestações Diárias” com desenhos de vítimas de ações contrárias aos protestos.

5. Pode me traçar um panorama rustico e cronológico de suas obras desde 2013 que tenham ligação com política?

De julho a dezembro de 2013 desenvolvi a série Manifestações Diárias com 55 desenhos de pessoas feridas nos protestos em ações contrárias a estes. Em seguida fiz o que chamei de Diário Ecumênico que consta em representar ícones religiosos feitos com panfletos, jornais, e impressos de diversas religiões, com a ideia pluralista de fortalecer o respeito às diferenças. Depois fiz uma série de trabalhos em azulejos que chamei de Diário Constitucional. Pintei frases da constituição nestes e integrei-os à rua para lembrar dos nossos direitos e suas violações flagrantes. Em junho de 2014 fiz a série Diário de Releituras refazendo grandes trabalhos artísticos reconhecidos mas adaptando-os à realidade brasileira. Depois fiz a série de vitrais que tem como mote o capitalismo como religião. A técnica que consiste em pintar os vidros numa alusão à de encaixe de vidros pré-coloridos dos vitrais é chamada “falso vitral” e assim a série foi denominada Diário de falsos vitrais, como que comentando também falsos ídolos. Diante de uma crescente onda xenofóbica decidi retratar através da linguagem da gravura de estilo nordestino perfis de usuários que promulgaram frases preconceituosas junto com um desenho que representava seus rostos e chamei-a de Diário anti-xenofóbico. O mais recente é uma série de matrioskas, são bonecos dentro de bonecos que comentam a situação política atual.

6. Uma tendencia perceptível no seu trabalho é a releitura de obras já consagradas, em especial durante a copa do mundo. O que uma releitura traz que uma obra original sua pode não trazer?

Estes trabalhos originais não chegaram ao reconhecimento mundial à toa e tem toda uma gama de informações que lidam com nossa sensibilidade de maneira ímpar. A releitura pega carona nessa majestade do trabalho primeiro então ela tem um certo caminho já trilhado, facilitado, de compreensão mais acessível. Assim ela ao mesmo tempo que se enriquece pelo trabalho original também o dá novo sentido entusiástico a este.

7. Esse livro que irá lançar “Diário em Progresso” será seu quarto lançamento em dois anos? quantos livros com trabalhos lançou desde 2013?
Este é o terceiro em 1 ano. Este ano lancei “Diário de classe”, sobre minhas experiências como professor; “Diário de leituras” que foi o projeto de comentar sobre 40 livros que li em um ano e agora o “Diário em progresso” sobre este contexto de repolitização que veio depois das manifestações de 2013. Em 2013 lancei também o livro “Diário de contos” com 53 histórias curtas ficcionais.
8. Esse trabalho é o primeiro que ira ter na escrita sua forma principal? Por que essa necessidade de escrever ao invés de expor como fazia antes?

Não, os meus outros livros são todos tendo a escrita como forma principal. Não tenho livros exclusivamente de imagens embora alguns são ilustrados. Gosto muito de escrever e neste trabalho senti que esta era a linguagem ideal para uma nova abordagem mais pormenorizada de alguns importantes fatos que ocorrem entre 2013 e 2014. A exposição de uma narrativa in loco parecia bem apropriada e foi assim que nasceu Diário em progresso.

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Leonardo Soares Coelho

Leonardo Soares Coelho

Fotógrafo e jornalista

Alex Frechette

Alex Frechette

Artista Plástico e Escritor.

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