Entrevista: Cacau Fernandes

Fotógrafa, uma das vítimas do carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, fala ao Coletivo Carranca


26.02.17 - Carnaval 2017 - Desfile na Sapucaí - Paraíso do Tuiuti - Grupo Especial - Tata Barreto | Riotur

A fotógrafa Cacau Fernandes é uma das 20 vítimas do primeiro acidente grave desse carnaval, inaugurando o desfile do grupo especial, no domingo (26), na Sapucaí. Em entrevista ao Coletivo Carranca, Cacau diz que não foi procurada por qualquer representante da Liga das Escolas de Samba (Liesa), da Paraíso do Tuiuti ou da Prefeitura, ao contrário do divulgado na imprensa e em nota oficial, questiona a cobertura parcial dos fatos, a precariedade do jornalismo, do Miguel Couto, dos carros alegóricos e o credenciamento de falsos jornalistas para privilégios na Avenida.


 

Estavam de camisas da escola.

Enquanto um vinha me socorrer,

eles se estapeando, querendo arrumar culpados.

Carranca:O que você se lembra do momento do acidente?

Cacau: O carro ficou parado um tempo, eles mandando andar e não andava de jeito algum, até que, de repente, foi em velocidade desproporcional. Muito rápido. E desgovernou, pendendo pro lado da grade onde estavam os que se machucaram com mais gravidade, espremendo as pessoas. Eu estava fotografando e gritei: “Gente! Está machucando!”. Quando tentaram ajeitar, ele foi pro lado oposto que eu me posicionei, achando que ele não fosse pra lá, que fosse apontar pra avenida. Mas foi muito rápido. E, também, imprensando as pessoas que estavam nesse outro lado: Severino Silva (O Dia), Marco Antonio (leia adiante), um rapaz que estava empurrando o carro e eu. Não lembro todos, mas esses eu vi. E mesmo imprensada, vi dois integrantes saindo no tapa. Fiquei sabendo que um deles era o motorista. Estavam de camisas da escola. Enquanto um vinha me socorrer, eles se estapeando, querendo arrumar culpados. Depois deram ré e o carro voltou pra avenida.

 

Carranca: O que aconteceu com você? Como você está?

Cacau: Quase fui esmagada. Arrastada até um canto entre uma lata de lixo e um alambrado. A lata de lixo ajudou a não comprimir meu tórax. Do esforço que eu fiz pro carro não chegar em mim, tentei segurar empurrando, tive estiramento dos músculos e lesões em tendões. Estou com dor, hematomas, sem movimentar os braços por uns dias, mas bem, perto dos demais.  

 

O hospital estava muito cheio,

só tinha um raio-X,

uma pessoa pra todo mundo

e um ortopedista.

 

Foto de Cacau Fernandes no Pronto-socorro do Sambódromo

Foto de Cacau Fernandes no Pronto-socorro do Sambódromo

 

Carranca: E no hospital?

Cacau: Fomos para um posto de saúde, depois Miguel Couto. Ficamos lá quase seis horas. As coisas aconteceram antes de meia noite, a Lúcia (Lúcia Regina de Melo Freitas, que segue internada) foi para o centro cirúrgico já eram mais de 5 e nós ficamos até umas 6 da manhã. Fomos bem atendidos? Na medida do possível: estava muito cheio, só tinha um raio-X, uma pessoa pra todo mundo e um ortopedista. Profissionais maravilhosos, mas é preciso frisar que o hospital não tem estrutura para uma tragédia. Ao final perguntei da Lúcia, o médico disse que a situação era difícil, pensava em amputação, mas não foi preciso. Precariedade, mas foram competentes.

 

Carranca:Eu ouvi de um colega que estava em outro ponto do Sambódromo, poucas horas após os fatos, quando as informações ainda estavam sendo apuradas, que chegaram a falar de um óbito. Você soube?

Cacau: Eu soube no hospital Miguel Couto. Os médicos falaram que uma mulher tinha amputado a perna no Sousa Aguiar e que ela veio a óbito, e isso era falado no circuito fechado do hospital. Eu falei: “Gente, mas isso procede?”, e eles falaram que quanto à amputação sim, mas do óbito não souberam dizer. Mas isso foi falado várias vezes lá dentro.

 

Carranca: Dentre os profissionais da saúde do hospital?

Cacau: Sim.

 

Carranca:E não seria a Lucia, de quem tem mais informações?

Cacau: Não, essa seria outra pessoa que já teria amputado a perna.

 

Carranca:E depois esse assunto não teve mais repercussão?

Cacau: Aí, logo depois disseram que tinha uma paciente que estava sendo transferida do “Sousa”, por questões de complexidade, pro Miguel Couto. E depois a Lucia chegou lá. Mas disseram que eram duas mulheres com pernas muito ruins.

Nenhum telefonema,

nem da Liesa, nem da Tuiuti, nem da Prefeitura.

Carranca: Que tipo de contato ou suporte você recebeu da Liesa, da Tuiuti ou da prefeitura?

Cacau: Eu, nada. Nenhum. Até agora nenhum. Nenhum telefonema, nem da Liesa, nem da Tuiuti, nem da Prefeitura. Pedi até ao meu filho para me ajudar, ele mora longe, mas veio, e hoje que vou poder comprar meu remédio, porque não dá para eu ir na rua nem ficar subindo e descendo escada. Estou com meu tórax muito dolorido. Os braços não têm lesão por fora, mas não consigo levantar e já apareceram alguns hematomas. E sou profissional freelancer, vou ficar dez dias inoperante, isso vai comprometer muito a minha renda, não vou poder trabalhar.

Foto de Cacau Fernandes: Atendimento inicial no sambódromo

Foto de Cacau Fernandes: Atendimento inicial no sambódromo

 

Carranca: Você estava contratada ou ia fotografar para ainda vender o material?

Cacau: Fotografar para vender. Apesar da agência (O Dia) que me credenciou estar me dando assistência, não sei se ela tem responsabilidade porque eu pedi para ser credenciada para trabalhar e fui escolhida por eles. E agora? Como vai ser? Disseram que posso contar com eles, mas não sou funcionária deles.

 

Carranca:Você chegou a saber de assistência para Lucia ou outros, além da visita do prefeito?

Cacau: “Eles” dizem que estão atendendo os mais graves. Quer dizer: os menos graves que se danem. Mas o filho da Lucia disse que não tiveram assistência nem da Liesa nem do Tuiuti, só a visita do prefeito. Não sei se o prefeito foi só fazer visita.

Ele me disse que não era jornalista não,

que estava ali só pra ver a Ivete Sangalo.

Carranca: Como você está observando a cobertura do episódio?

Cacau: Acho que algumas coisas estão sendo abafadas. Estão anunciando que a Liesa e a Paraíso do Tuiuti estão dando assistência, e não estão. Do acidente da Unidos da Tijuca, a gente não sabe das vítimas. No nosso caso, disseram que os jornalistas foram culpados do acidente. Eu não acho que os jornalistas tenham sido culpados. Infelizmente, é sabido que se tem um jornalista existem outros que não são, que são apenas “amiguinhos dos amiguinhos” credenciados que ficam enchendo a pista. Alguns profissionais além do crachá tem o colete, e com ele você pode transitar em toda Marquês (de Sapucaí). Os que estavam com colete eram poucos. No total, tinha de 40 a 50 pessoas. Às vezes a gente quer se locomover como profissional e não consegue porque tem 10, 20 que a gente nunca viu na vida. Um jornalista conhece outro, a gente sabe quem é só pelo modo de se posicionar, e a gente vê um monte de curioso na pista com credencial de jornalista. Muitas vezes, quando estamos nos posicionando até a nos precaver, somos empurrados por esses amigos de alguém. Eu acho que esse é um dos motivos, também, para acontecer acidente mais grave, porque a gente não tem espaço para se locomover com tanta gente que não é da área.

 

Carranca:Você identificou, no local do acidente, não só jornalistas? Mas pessoas com esse perfil?

Cacau: Tinha menos de um terço de jornalista ali. Menos de um terço. O restante era só gente que tinha credencial, e não era do jornalismo não. Não era! Tanto é que tinha um moço do meu lado que tinha credencial de jornalismo, que estava do meu lado, o Marco Antonio, e dentro do hospital ele me disse que não era jornalista não, que estava ali só pra ver Ivete Sangalo.

Não houve fiscalização nenhuma no carro. Não há.

Porque se houvesse não teria tido um segundo acidente.

Carranca:Até o  sujeito fica “vendido” numa situação dessa…

Cacau: Isso é culpa de quem dá credencial pra uma gente que não é para fazer cobertura do carnaval. A gente (jornalista) deveria estar ali sim, e não poderemos ser culpados, nem julgados, nem penalizados daqui a um ano, por conta de um acidente que é culpa de inteira responsabilidade deles, porque não houve fiscalização no carro. Não houve fiscalização nenhuma no carro. Não há! Porque se houvesse não teria tido um segundo acidente. E todos nós sabemos que todo ano tem carros que são empurrados quebrados. Quando acaba o carnaval a gente olha a estrutura e são todos enferrujados. Isso é do conhecimento de todos. Novidade pra ninguém. Se você entrar num barracão, muitos usam sucatas na estrutura. As estruturas são ridículas. É sucata, de verdade. Pelo estado da roda (do carro da Tuiuti), todo mundo viu depois a roda, estava assim em muitos carros.

A gente no chão, ainda, e o carro seguiu.

Carranca:Constatada a tragédia, foi rápido o atendimento? Houve pressão para que o desfile continuasse, apesar de tudo?

Cacau: As duas coisas: atendimento rápido e forçaram para que o desfile continuasse. Teve uma briga, eles se estapearam, se socaram, nós ali, na avenida, e em nenhum momento voltaram os olhos pra gente. Mas logo que eles constataram que o negócio era sério.

 

Carranca:Vocês, ainda no chão, e o carro seguiu?

Cacau: O carro seguiu. O carro seguiu. O carro seguiu. A gente no chão, ainda, e o carro seguiu.

 

Carranca:E seguiu normal?

Cacau: Aparentemente normal.

 

Carranca:O motorista que você identificou como o motorista que apanhou do colega, ele ainda voltou pro carro, você conseguiu ver isso?

Cacau: Voltou. Eu vi isso. Ele tomou o soco e voltou, ainda, para pilotar o carro.

 

Carranca:Então, ele que teria sido o que seguiu pilotando dali em diante até determinado trecho?

Cacau:E ele gritando que a culpa não era dele, que ele seguia ordens, que a culpa não era dele. “A culpa não foi minha! Não sou o culpado!”, e ele continuava ali. Não vi ele sair (da Avenida).

Mas amanhã já é notícia velha.

Carranca: Sobre a cobertura dos fatos, percebeu algum tipo de “operação abafa”?

Cacau: Vi isso assim, tanto que continuou tranquilamente o carnaval e não houve mais ênfase em nada, a não ser depois com o caso da Unidos da Tijuca. Deviam procurar mais todas as pessoas acidentadas. Teve as que até agora não vi ninguém falando sobre. Até o caso desse Marco Antonio que foi ver Ivete Sangalo e teve uma lesão na coluna e ia ficar imobilizado de não poder andar, de repouso. Parece que vão dar uma matéria mais ampla, vamos ver. Mas amanhã já é notícia velha.

 

Carranca:E com relação a precaridade do jornalismo na cobertura?

Cacau: Eu acho que a imprensa tem interesse porque quem se machucou foi a imprensa. Poderia ter sido qualquer um e ela tem que mostrar o que realmente aconteceu. Mostrar a precariedade de onde trabalhamos. A gente trabalha no limite. Sempre com muitos riscos. Não somos pagos o que merecemos. Não somos tratados como deveríamos. Somos marginais. E não existe seguro (de vida, saúde) nenhum. Na credencial só tem coisas que a gente deve seguir o que eles falam e ponto. O que diz a credencial é: “Para poder transitar na pista do desfile, o portador deverá estar obrigatoriamente vestido de colete e observar que é proibido transitar à frente das escolas, bem como permanecer em frente às frisas.”. Eles colocam isso aqui, a gente está credenciado para andar, mas não pode ficar em frente às escolas e às frisas? Como isso funciona?

Os amiguinhos vão estar lá.

A imprensa não.

 

Carranca:Como você resumiria essa “experiência”?

Cacau: As únicas pessoas que irão pagar por isso são os próprios vitimados. Seremos penalizados mais à frente. Haverá menos credenciamento. É para ser uma festa bonita, mas algo que é responsabilidade deles vai ser nossa. Quem vai pagar é a gente. Os amiguinhos vão estar lá. A imprensa não.

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Sobre o carnaval 2017, leia também: http://coletivocarranca.cc/tropicarnavafagia/

Sobre o carnaval 2016: http://coletivocarranca.cc/bloco-de-gente-bonita/

Sobre o carnaval 2015: http://coletivocarranca.cc/bloco-das-mulheres-rodadas/

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Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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