Entrevista: Cláudia Rodrigues Carvalho – Diretora do Museu Nacional / UFRJ


Cláudia Rodrigues Carvalho - Diretora do Museu Nacional / UFRJ. Foto: Divulgação.

Pátria Educadora. O novo slogan, anunciado no discurso de posse da presidente Dilma Rousseff, abarca um início de governo com arrocho, inclusive para a Educação. A palavra de ordem é “austeridade”, e já começou. Por decreto, o governo federal bloqueou provisoriamente 1/3 das despesas administrativas dos ministérios, incluindo as de custeio – consideradas não obrigatórias, são aquelas destinadas à aquisição de bens e materiais de consumo e à contratação de serviços de manutenção.

O corte de R$ 7 bilhões no custeio do Ministério da Educação (MEC) foi o maior de todos os 39 ministérios, apesar do MEC continuar sendo o terceiro maior orçamento (R$ 101,3 bilhões), atrás apenas da Saúde e da Previdência. O aperto, a priori, será até que o orçamento de 2015 seja aprovado no Congresso (a previsão é março). A medida não chega a ser novidade. Sempre que o ano começa sem que a Lei Orçamentária Anual (LOA) tenha sido aprovada pelo Congresso, a praxe é o governo determinar que cada ministério desembolse um percentual das verbas previstas para o ano, por mês. Tradicionalmente este corte temporário é de 1/12 (8,3%), mas no decreto deste ano a parcela foi reduzida a 1/18 (5,3%).

Mas estamos falando de 2015, e os problemas que levaram o maior museu de História Natural e Antropologia da América Latina a amanhecer de portas fechadas na segunda-feira (12/1) vem de antes. Sem contrato que forneça serviços de portaria, há meses, e com seus terceirizados da limpeza também sem receber, consequentemente sem condições adequadas de manutenção dos espaços abertos ao público, com o áreas de exposição e banheiros, o Museu Nacional da maior universidade do país, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), capitulou. E não só ele. Semana passada, alguns vigilantes da empresa que presta serviços de segurança na sede da UFRJ, na Ilha do Fundão, em protesto, ocuparam a reitoria. O problema também atingiu os terceirizados da faxina, que cruzaram os braços até que alguma garantia lhes fosse dada sobre, pelo menos, o pagamento de outubro.

Como o cerne do problema é que o governo federal, via MEC, não fez o repasse de parte das verbas de 2014 às universidades federais, o caos não é exclusividade na UFRJ. Na Universidade Federal Fluminense (UFF), os terceirizados que estão sem receber desde novembro disseram que sem pagamento entrariam em greve essa semana.

Se o corte que incorre na inadimplência dos contratos não é consequência da nova política de austeridade de 2015 e vem do ano passado, o problema “é uma bola de neve” – como ouvimos da diretora do Museu Nacional, Cláudia Rodrigues Carvalho, em sua fala na reunião que teve com funcionários, estudantes e pesquisadores sobre a crise e possíveis soluções cotidianas que permitam que o acervo do Museu e as pessoas que nele trabalham e estudam “sobrevivam” até que a situação se normalize.

Visitamos o Museu Nacional ontem. As consequências para visitantes, funcionários, estudantes e pesquisadores atinge diretamente milhares de pessoas. Saiba os detalhes na matéria Je Suis Museu Nacional – a mais antiga instituição científica da Pátria Educadora, de portas fechadas”. E foi nessa visita que a cientista e servidora federal Claudia Rodrigues Carvalho nos recebeu visivelmente tensa e atarefada, com um sorriso no rosto.

Mal chegamos, ela acabava de sair de mais uma entrevista para uma emissora de TV, e já estávamos nós sendo encaminhados pelo assessor de imprensa, junto com ela, para o auditório onde, exclusivamente, em meio a tantas cadeiras vazias, tivemos nossa conversa. O tempo era curto, havia outras equipes de reportagem na fila.

Arqueóloga, mestre e doutora em Saúde Pública com especialização em Paleopatologia, a professora do Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional assumiu a direção da casa há cinco anos e está em sua segunda gestão. Em tom de voz baixo e fala tranquila, ela nos explica sua visão da crise, o impacto avassalador que a inadimplência de um contrato de faxina tem sobre um Museu e centro de pesquisa, política pública e gestão de espaços culturais, históricos e tombados inseridos na academia e da importância do Museu Nacional e equivalentes para a Educação da Pátria Educadora.

A entrevista a seguir é a íntegra de uma gravação feita em áudio.

Raquel – Por favor, gostaria que você relatasse o que está acontecendo.

Claudia – Nós tivemos um problema referente a atraso de repasse de verbas do governo, o orçamento de 2014 para a Universidade Federal do Rio de Janeiro não foi repassado em sua totalidade e isso acarretou uma série de atrasos nos pagamentos dos contratos que a UFRJ tem. Um desses contratos é o contrato de limpesa com a empresa Qualitecnica que presta serviços de limpeza aqui pro Museu. A empresa ficou três meses sem receber, mas há uma cláusula contratual que garante que a empresa tem que cumprir suas obrigações mesmo com esse atraso de três meses, mas agora já não tem mais condições de se manter e por isso não pôde pagar nem o salário dos servidores nem os encargos e adicionais como vale transporte, vale refeição, etc. Então na semana passada nós fomos informados que os funcionários não viriam mais trabalhar até que a situação se regularizasse, mantivemos o Museu aberto até domingo para que tivéssemos tempo de avisar ao público, de não deixar num final de semana de sol o Museu fechado, e na segunda-feira não foi mais possível nenhum paleativo e tivemos que fechar preventivamente para assegurar não só condições mínimas para nossa visitação mas também garantir a salubridade dos nossos acervos e da própria exposição.

Raquel – No fim de semana funcionou já sem nenhum funcionário da limpeza…?

Claudia – No fim de semana funcionou ainda com alguns funcionários que se propuseram a ajudar praticamente de uma forma voluntária, pra que a situação não chegasse simplesmente a um fechamento sem nenhum tipo de aviso – repito: num fim de semana, com sol a pino, onde o parque [Quinta da Boa Vista] é sempre é muito cheio e o Museu é muito procurado nessa época do ano.

Raquel – Funcionários outros, que não necessariamente os da limpeza…?

Cláudia – Funcionários da limpeza e outros funcionários do Museu colaboraram.

Raquel – Então vieram os funcionários da limpeza, apesar de não receber…?

Cláudia – Vieram. Tivemos a presença de alguns funcionários que se dispuseram, que são comprometidas com o Museu, se dispuseram para que não deixar que acontecesse isso [fechamento] de uma forma tão brusca, tão acentuada.

Raquel – Esse repasse que não foi feito é de qual tamanho? Qual valor?

Cláudia – A informação que nós temos oficial é que cerca de 20%, se não me engano, de custeio da UFRJ, não foi repassado à UFRJ em 2014. Esse valor, como um todo, acho que é em torno de R$ 60 milhões, ou algo assim, mas eu não sou a pessoa mais indicada pra isso porque as finanças da UFRJ são geridas pela própria UFRJ. E todo contrato é também gerido pela UFRJ, o dinheiro não é repassado para o Museu – ele fica na UFRJ que repassa para as empresas.

Raquel – Por enquanto atingiu só os funcionários da limpeza? Segurança ou outros setores também estão comprometidos?

Cláudia – Não… A gente não tem nenhuma informação que possa ameaçar nossa situação de Segurança. Nós já tivemos, há algum tempo, o cancelamento de um contrato dos porteiros, e há um esforço da UFRJ agora para uma licitação emergencial de um novo contrato de porteiros, nós estamos sem porteiros, mas no momento o serviço de vigilância continua funcionando sem prejuízo.

Raquel – Além do impacto direto para o público, que deixa de ter o Museu disponível à visitação, qual é o impacto interno – para o acervo, para o funcionamento dos setores do Museu, as áreas de pesquisa, e de que maneira esse problema pode vir a acontecer nos próximos dias?

Cláudia – Para o acervo, no momento, nós estamos monitorando, fazendo o possível para manter o acervo em condições mínimas e estudando possibilidades. Na verdade se nosso problema com a limpeza se estender por muito mais tempo existe a possibilidade de nós também fecharmos as áreas administrativas ou limitarmos a frequência das pessoas a um número pequeno para evitarmos maiores transtornos para o acervo e objetos que estão em exposição também.

Há claro um prejuízo muito grande afetivo, moral, de ver o Museu numa situação assim, para todos nós… Então essa também é uma questão. Eu recebi várias mensagens de funcionários, quando nós avisamos que iríamos fechar na segunda-feira, entristecidos com essa situação… Nós temos muitos funcionários que têm muito orgulho de trabalhar nessa casa, muito orgulho de trabalhar no Museu, então isso é um prejuízo muito grande emocional para quem trabalha aqui.

Nós estamos fazendo o possível para minimizar quaisquer problemas com as áreas de pesquisa, com a pesquisa básica e imediata que está havendo, mas dependendo da situação a gente vai ter também que reduzir essas atividades – acredito que não porque a gente sabe que existem recursos entrando, que a UFRJ já está realizando pagamentos para a empresa e que até o final de semana essa situação deva estar resolvida. Mas se houver algum problema nesse caminho vamos ter que tomar decisões, porque além do acúmulo de resíduos o calor intenso favorece a proliferação de insetos e outros organismos que são prejudiciais aos nossos acervos.

Raquel – Na prática, também, para o bem estar e a manutenção de um expediente, banheiros têm que estar funcionando, cozinha… Por enquanto isso ainda está sob controle ou já está começando a ter dificuldade?

Cláudia – A gente não tem ninguém para retirar os resíduos nesse momento. Eu vi vários funcionários, independentemente, juntando os lixos de algumas seções, retirando do Museu, organizando… Algumas pessoas se movimentando em prol da coletividade do Museu, mas estamos monitorando exatamente essa questão e se exatamente essa ou outra medida terá que ser tomada ou não.

Raquel – Eu queria uma avaliação sua: há quantos anos você está na direção do Museu? Quanto tempo de UFRJ?

Cláudia – Cinco anos de Museu, dezesseis de UFRJ.

Raquel – Nesse tempo, com sua experiência e visão, tanto de políticas públicas quanto de gestão desse tipo de espaço, a gente teve há pouco tempo, e mais de uma vez, por exemplo, o MASP [Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand] com uma crise séria – e aqui estamos tocando especificamente na pergunta com o exemplo de um museu. Chegou-se quase a pensar em vender parte do acervo, fez-se contato com o Banco Itaú e até sentiram-se empolgados pela boa receptividade do mercado privado com relação à possibilidade de um financiamento ou de um suporte financeiro. Temos também a criação, em 2011, da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERVH), vinculado ao MEC, que passou a gerir hospitais universitários…

Cláudia – Não na UFRJ, mas em algumas universidades.

Raquel – Eu queria entender e saber de você se há alguma informação se, no caso da UFRJ e atingindo o Museu Nacional especificamente – e eu sei que existe esse tipo de crise de terceirizados em outras universidades federais –, se essa é uma crise pontual, pelo menos nos últimos anos que você pode acompanhar, e se está acontecendo por uma conjuntura específica “x”, ou se existe algum modelo de programa, de política de governo, ou algo que seja, para mudar a gestão desses órgãos e desses espaços públicos?

Cláudia – Gerir um Museu – e espaços culturais – é muito complicado, porque é uma lógica que muitas das vezes é diferenciada da lógica legal, fria, que nós temos. Na verdade museu precisa de serviços de alta qualidade, precisa de serviços altamente especializados, que nem sempre não são passíveis de uma atenção ou de um tratamento diferenciado. No caso do Museu, serviços de limpesa “do museu” – que vem servindo a gente de forma bastante adequada – ele é um serviço contratado a vários setores da UFRJ. Nós sonhamos, um dia, em ter o nosso próprio contrato, um contrato específico para o Museu, e não porque o Museu seja extremamente autônomo, mas por uma questão, exatamente, da sua singularidade. Então, para nós é importante, por exemplo, ter um serviço de limpeza de reserva técnica especializada. Limpar banheiro é uma questão geral, mas limpar uma exposição não necessariamente é igual. Executar uma atividade de limpeza em um prédio tombado também não é trivial, tem uma série de procedimentos… Num espaço tão diferenciado acaba sendo uma questão igualmente diferenciada – e obviamente onerosa. Esse é um problema bastante crítico de museus que estão em esferas universitárias. A UFRJ é a maior universidade do país, mas ela tem oito hospitais, ela tem uma quantidade grande de alunos, vários centros, grandes necessidades. E o Museu também é o maior museu do Brasil. Então temos um gigante dentro do outro, numa situação que é bastante difícil.

Eu acho que essa situação talvez seja importante para que os gestores, para que o MEC, naturalmente o MinC em outros casos, no caso como você citou o MASP da esfera estadual, repensem os museus, repensem essas estruturas que não são estruturas comuns, que têm suas particularidades, que a gente precisa repensar e lembrar que é serviço público.

Obviamente um museu não é um hospital, mas um museu ele fornece um serviço de grande estima. Um museu alimenta e liberta a mente, alimenta a alma, ele é um passaporte para o conhecimento, para a descoberta, tem um alto valor para quem o visita, ele tem um alto valor para quem lida com ele, então é importante que a gente repense quais são os mecanismos, quais são as formas de gestão, como a gente pode lidar com museus, especialmente com museus que estão na esfera universitária, que estão inseridos nessa dinâmica, e até porque estão na universidade colaboram muito intensamente não só com os estudantes universitários mas também com a formação de todo o nosso público em idade escolar.

Raquel – A partir do exemplo da política cultural em São Paulo, há como se estimar, fazer uma especulação, ou até, se há uma informação objetiva, se há interesse de se sair sucateando essas estruturas para que se crie, objetivamente, razões concretas, para que se justifique outro tipo de gestão, que não a gestão pública? Que se criem, por exemplo, oscipes, fundações, empresas, para que essas passem a ser, a partir de editais, as que vão gerir esses espaços?

Cláudia – Eu acho que essa não é a saída, né? …

Raquel – Mas existe esse tipo caminho em curso?

Cláudia – Eu não sei se exatamente isso. Parte do sucateamento histórico do próprio Museu Nacional ele na verdade não parece passar por isso, ele simplesmente é uma estrutura grande dentro de uma outra estrutura grande e uma série de austeridades e uma série de questões relativas a recursos, não só ao Museu, mas recursos à educação, às universidades – as universidades, durante muitos anos, ficaram em situações de penúria… Nós tivemos, de fato, um crescimento, um desenvolvimento maior nos últimos dez anos, doze anos, mas mesmo assim são estruturas complexas. Eu não acredito, neste caso, que o sucateamento seja com essa finalidade, embora a gente veja que isso possa acontecer em alguns locais. Eu acho que o sucateamento é uma questão de gestão. Nós precisamos repensar: o modelo de gestão não está sendo de forma adequada. Precisamos repensar como reestruturar isso; como, eventualmente, ter uma linha clara no orçamento para os museus, como adequar isso, como formar ou como preparar, por exemplo, os gestores dos museus. No caso eu sou a dirigente dessa instituição e sou professora, então como preparar os funcionários para otimizar as suas ações, como de fato preparar isso: desde o básico que é o setor administrativo até mesmo nas diferentes instâncias. Se nós tivéssemos uma linha orçamentária para museus e para a cultura dentro das universidades, talvez nós pudéssemos sentar à mesa para discutir de fato isso. Essa é uma reivindicação que vamos nós fazer na UFRJ, eu coordeno um grupo que busca criar um sistema integrado de museus e coleções científicas da UFRJ na tentativa, exatamente, de ter uma voz e de ter modelos possíveis de gestão que não permitam que essa situação chegue a esse termo: termos que fechar uma instituição por um problema de gestão, por um problema administrativo.

Raquel – E desde o dia primeiro [Jan/2015] a gente é a Pátria Educadora com perda no investimento em Educação já nos últimos dias. O corte passa dos R$ 7 bilhões, e o MEC foi o mais atingido

Cláudia – Exatamente. A gente vai passar por um período, obviamente, de austeridade, mas acho importante que se somos a Pátria Educadora comecemos desde já a trabalhar nisso. Nós já vivemos na austeridade muito tempo, a questão não é se nós teremos mais ou menos dinheiro, mas a questão é como nós vamos lidar com esse dinheiro. Então é fundamental que se repense, que a gente possa conversar, que as autoridades possam vir até para conhecer qual é a realidade do Museu, qual é a situação desses museus nas esferas universitárias – o que os diferencia. Nós precisamos que esse seja um modelo de conhecimento, não apenas a aplicação de um modelo de gestão, mas de construção. Precisamos, de fato, construir algo novo para que essa pátria seja, de fato, uma Pátria Educadora, que essa educação esteja presente nas salas de aula, mas que ela seja claramente refletida com mais museus, com mais espaços de divulgação científica, com mais pontos de educação fora da estrutura formal.

Raquel – Por enquanto vocês, internamente, continuam trabalhando…?

Cláudia – Continuamos trabalhando com algumas sugestões – fizemos uma reunião ontem, teremos outra daqui a pouco – de que alunos e estagiários que não precisem vir frequentemente que não venham, e só apenas aquele que for fundamental. Os serviços essenciais obviamente estão mantidos, eventualmente os funcionários que se sentirem mal, que tiverem crises alérgicas, estão liberados para ficarem em casa.

Compartilhar artigo

Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

Rui Massato Harayama

Rui Massato Harayama

Antropólogo, Colaborador da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. Ativista do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

Loading Facebook Comments ...