Eu entendo por que ocidentais estão se juntando ao ISIS. Eu quase fui um deles.

Por Michael Muhammad Knight no Washington Post


arte: Leonardo Coelho
arte: Leonardo Coelho

* n.e: Essa é uma tradução livre do jornalista Leonardo Coelho de um artigo  originalmente publicado no Washigton Post no dia 3 de setembro. Todos os direitos são do autor original e do veículo.

O ISIS acabou de lançar um novo e horrendo vídeo de decapitação, este também praticado por jihadistas ocidentais. Como sempre acontece, eu recebi mensagens me pedindo uma explicação. Veja bem, eu sou um jihadista que nunca foi.

Há quase 20 anos eu deixei meu ensino médio católico nos arredores de Nova Iorque para estudar em um colégio financiado por Sauditas no Paquistão. Como um recém-convertido, eu estava entusiasmado de viver na mesquita e de estudar o Corão todo o dia.

Isso foi no meio dos anos 90, quando a escalada dos conflitos na Chechênia perante a opressão russa estava acontecendo. Após as aulas, ligávamos a televisão e víamos apenas destruição e sofrimento. Os vídeos eram medonhos. Tão medonhos que logo eu me pegava pensando em abandonar os estudos religiosos, pegar em armas e ir lutar pela liberdade da Chechênia e seu povo.

Não foi um verso que eu li no Corão que me fez pensar em ir à guerra, mas sim meus valores americanos. Eu cresci nos EUA dos anos 80, sob batuta de Reagan, e havia aprendido que, assim como os bonecos dos Comandos em Ação (G.I.Joe), era correto “lutar pela liberdade, onde quer que houvesse problemas”. Eu assumi que indivíduos tinham o direito – e o dever – de intervir em qualquer lugar do globo onde se percebesse ameaças à liberdade, justiça e igualdade.

Para mim, querer ir a Chechênia não era reduzível a uma mera “ira muçulmana” ou “ódio pelo ocidente”. Pode ser até difícil de acreditar, mas eu pensava sobre a guerra em termos de compaixão. Como muitos americanos movidos pelo amor ao país enquanto militares, eu também desejava lutar contra a opressão para proteger a segurança e dignidade dos outros. Eu acreditava que o mundo estava em péssimo estado.Eu acreditava na farmacopeia mágica de que os problemas poderiam se solucionar através da renovação de um Islã autêntico e de um Sistema de Estado muçulmano. Mas eu também acreditava que trabalhar pela justiça era mais valoroso que a minha própria vida.

Eventualmente, eu decidi ficar em Islamabad. E as pessoas que efetivamente me convenceram a não ir lutar não foram os tipos de muçulmanos propagados na mídia como liberais e reformistas pró-ocidente. Eles eram extremamente conservadores. Alguns até diriam intolerantes. No mesmo universo de aprendizagem no qual eu aprendi que meu irmão não-muçumano iria arder no inferno, também me foi dito que eu poderia trazer mais benesses como um acadêmico que como um soldado, e que eu deveria me esforçar para ser mais do que apenas um corpo numa trincheira. Esses tradicionalistas me lembraram da frase de Maomé de que o preto da tinta dos acadêmicos é mais sagrado que o vermelho do sangue dos mártires.

A mídia habitualmente desenha uma linha bem clara entre categorias imaginárias de “bom” e “mau” muçulmano. Meus irmãos no Paquistão teriam feito essa divisão muito mais complicada do que poderia parecer. Esses homens, aos quais via como super-homens da devoção, ao falar comigo como autoridades da própria tradição islâmica diziam que a violência não era o melhor que eu podia oferecer.

Alguns jovens em minha situação parecem ter recebido um conselho diferente.

É fácil assumir que religiosos, particularmente muçulmanos, simplesmente fazem coisas porque a fé assim os permite. Mas quando eu penso sobre meu impulso de sair aos 17 anos para lutar pela liberdade da Chechênia eu levo em conta mais do que meros aspectos religiosos. Meu cenário de fantasia de poder libertar a Chechênia e transformá-la em um Estado Islâmico era uma pura fantasia americana, calcada em seus ideiais e valores .Toda vez que eu ouço que eles  voaram meio mundo para se jogar em guerras para “libertar” outros que não os seus eu penso: “Isso é algo tipicamente americano”.

E é esse o problema. Fomos criados para amar a violência e ver a conquista militar como um ato benevolente. Um jovem dos EUA que queira intervir em outra sociedade em guerra deve tanto ao pensamento do excepcionalismo americano quanto um jihadista deve ao Corão. Eu cresci em um país que glorifica o sacrifício militar e se sente no direito de reconstruir outras sociedades de acordo com seu próprio mundo. Eu internalizei esses valores antes mesmo de pensar sobre religiosidade. Antes mesmo de saber o que era um muçulmano, a “jihad” ou “califado”, meu estilo de vida já havia me ensinado o que homens corajosos fazem.

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Leonardo Soares Coelho

Leonardo Soares Coelho

Fotógrafo e jornalista

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