Favela Tours: turismo sustentável ou zoológico humano?


Turistas numa laje fotografando a intimidade dos moradores da favela. Foto: Rachel Gepp (Fev/2015)

O Relatório de Tendências Globais de Turismo, World Travel Market, uma das maiores feiras do setor turístico, que acontece em Londres, destacou o Turismo de Realidade como uma das megatendências mundiais do setor.

Turismo de Realidade é motivado por situações de extrema pobreza e catástrofe. Pessoas procuram esses lugares para ter uma vivência interativa da realidade nua e crua aproximada da miséria e do sofrimento. Uma experiência nova, que foge do turismo contemplativo.

Na África do Sul, foi criado um hotel que imita a pobreza . O hotel de luxo pretende fazer com que os turistas ampliem a consciência sobre a pobreza nesse pequeno refúgio, que conta com água quente, wi-fi e eletricidade.

Essa tendência é o mais novo modismo do turista ocidental. Como grande parte da indústria turística trata do terceiro mundo como um zoológico humano, as favelas viraram o jardim zoológico da indústria da piedade no Brasil. Agora os “gringos entediados” estão chegando em massa e agendam suas férias com itinerários que incluem as favelas, lugar de crime, horror e inferno como propagandeado pelo filme “Tropa de Elite”.

O mesmo fenômeno vivenciei no Camboja, país que vive sob o estigma da guerra e onde morei entre 2011. Lá o volunturismo é importante para a economia do país e as ONGs internacionais de ajuda humanitária suas maiores exploradoras. O Marketing da Piedade leva turistas “voluntários” a fazerem de tudo que puder para ajudar os pobres, crianças inocentes que encontram em suas viagens, e cumprir em seu check-list de viajante ser a Angelina-Jolie-por-um-dia.

Curiosamente o Governo depois de anos de abandono, ausência de serviços e de infraestrutura, agora lança o turismo como a salvação da favela! Uma atividade sazonal e sujeita a variação mercadológica. Isso está realmente ajudando a preencher o vazio deixado pelo Estado? É de turistas de curto prazo que esses lugares precisam?

No Santa Marta, a única sinalização existente nesse território foi improvisada pelos próprios moradores, sem nenhuma ajuda do poder público, que nem cartas recebem por não possuírem CEP. Mas o Governo do Estado instalou placas de sinalização bilíngues para os turistas.

Os moradores das favelas estão sendo enganados, achando que serão protagonistas de uma atividade com alto potencial lucrativo e com ela irão progredir. No entanto, o favelado é justamente a commodity com potencial de exploração dessa indústria.

Os Favela Tour, como peça publicitária são muito bem feitos. A maquiagem valoriza excessivamente os impactos positivos e os benefícios e deixa de lado as consequências indesejáveis. A começar pelos agentes idealizadores e exploradores, que são externos, grupos profissionais de empreendedores que lançaram um produto diferente para as hordas de turistas: visitar as favelas. O favelado é o produto turístico. Para o turista, a possibilidade de entrar na favela e conhecer o modo de vida do favelado é o fator fundamental dentro da composição do pacote.

Os investimentos para atender a demanda da megatendência do turismo são feitos com falsos discursos de infraestrutura para a favela. Como as obras do PAC, com forte apelo turístico, a exemplo o teleférico do Alemão, que foi anunciado como investimento de mobilidade, mas em verdade trata-se de uma atração para turística para contemplação da pobreza, com ofertas em sites de compra coletiva.

E como o mundo pós-moderno é escrito e assinado pelo jornalismo e pela publicidade, os telejornais executam regularmente a rotina promocional da UPP: “Turistas trocam hotéis da orla por albergues nas favelas”. Há sempre um favelado empreendedor, determinado e dono do seu próprio negócio para servir de personagem. Mas o que vemos em campo e o que esse tipo de propaganda enganosa camufla, é uma invasão de negócios administrados por estrangeiros surgindo nas favelas.

Não podemos deixar de fazer uma reflexão bem lenta sobre as estratégias da UPP, a nova gestora desses territórios, antes dominados pelo tráfico. Observar os desdobramentos da UPP é como reviver a estrutura brutal e racista do colonialismo: ocupar para explorar. A política de pacificação é a cabeça dessa tecnologia de expansão capitalista. Os agentes-do-estado-capitães-do-mato estão nas favelas garantindo a exploração desse território e da jazida humana: artesanato, gastronomia, dança do passinho e toda ordem de coisa que possa virar mercadorias made in favela.

Portanto, é ingênuo aceitar os discursos de mocinho x bandido produzidos para justificar a UPP como um projeto de segurança pública. Os territórios “retomados” pelo estado – como se ele nunca estivesse presente antes em formas de arrego, taxas, pedágios, desvios e lavagens – compõem o cinturão turístico da cidade que vai receber os megaeventos.

Um morador do morro Santa Marta e guia turístico de um projeto de base comunitária, desabafa: aqui agentes da UPP fazem escolta dos turistas que chegam pelos jeep tour e também é cada dia mais comum eles fazerem o trabalho de guia. Já denunciamos e criticamos, mas eles dizem que vão continuar fazendo. Então além de nos oprimir, a UPP está aqui também para tirar nosso sustento.

As favelas são locais de moradia de sujeitos marginalizados. Moradores de favela não são atrações turísticas. Visitar a favela como zoológico é naturalizar a discriminação. É redimensionar o racismo e impor esses grupos marginalizados à condição de coisa.

Essa mudança das situações econômico-sociais está de fato possibilitando que o favelado eleve material e intelectualmente? É emancipador? Sabemos que o dinheiro não fica na favela. Quem lucra com essa atividade são as agências de turismo de fora. Para o morador local resta progredir lentamente à custa dos artesanatos e da servidão.

Tais práticas não estão comprometidas com a emancipação desses indivíduos ou promovendo um entendimento maior acerca de si mesmo para alcançar patamares de liberdades políticas. E o pior, ressalta as distâncias sociais, os graus de poder e status e aumenta os estigmas das injustiças que eles são vítimas.

Guias locais do Santa Marta estimam que os turistas deixam menos de R$5 quando visitam a favela. Eles já são orientados nas agências a não consumir nos estabelecimentos locais alegando que nas favelas as pessoas são sujas.

Por tudo isso, antes de apoiar tão rapidamente essa política de desenvolvimento dita “sustentável”, devemos questionar se ela está realmente ajudando ou, ao invés disso, está impulsionando o desenvolvimento de uma indústria que explora os mais vulneráveis. E ainda, contribuindo para o processo de gentrificação das favelas.

Na Babilônia, um bar foi comprado por um estrangeiro e uma área pública ao lado, conhecida como mirante, transformada por ele em point de festa para estrangeiro e cariocas moderninhos que sobem o morro atrás de points da moda. Ele agora disputa o local com os moradores, que já foram expulsos do local.

Dona Marta, que tem uma barraquinha de cachorro quente no mirante, conta que já foi hostilizada pelo novo dono do bar, que a chamou de favelada de forma pejorativa e a acusa de estar explorando o local às suas custas, pois o público que agora frequenta o local é dele.

O morador da Babilônia entendeu o significado de gentrificação quando estranhou o preço da cerveja que o bar vendia, aumentar de preço mais de uma vez. Quando questionaram o que estava acontecendo escutaram “Nosso público é outro, aumentamos a cerveja para não incentivar o pessoal do morro vir aqui.”

Ora, se a ideia é não se misturar ao favelado, por que os turistas e a classe média cult & politizada que descobriu a favela e escreveu no Facebook #cadeoamarildo?, busca esses lugares? Não entendem que subir o morro para expulsar o morador original e impor seu modo de vida é uma forma de matar também?

 

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Rachel Gepp

Rachel Gepp

Publicitária, ilustradora, fotógrafa, comunicadora popular e militante defensora de direitos humanos.

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