De cima

Enrico Marcovaldi, especial para o Coletivo Carranca


Enrico Marcovaldi, o “fotógrafo da natureza”, como se intitula, um dos fundadores do Instituto Baleia Jubarte em Salvador, autor dos bancos de imagens dos principais projetos de conservação marinha no Brasil, o repórter submarino das baleias e do melhor da costa brasileira, em especial fotográfico para o Coletivo Carranca.

E.M. (17h51) — Acabei de chegar do outro sobrevoo.

R.B. — Queria ouvir que você não voltou deprimido.

E.M. — Muito.
A lama está mais densa. Já saindo pró mar. Um abóbora escuro, tristeza… Vem pra cá não, é de chorar.
Mas acho eu que vai passar. Com bastante sequelas, mais vai passar!

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Mariana está a 650 km do oceano. A barbárie do rio Doce está no período de defeso da piracema. É quando os peixes nadam rio acima, às nascentes, para se reproduzirem, quando a pesca é proibida por lei para garantir a reprodução das espécies, lembrou um pescador local.

Barreira pela Samarco para tentar conter a lama na foz. Foto: Enrico Marcovaldi (21/11/2015).

Barreira pela Samarco para tentar conter a lama na foz. Foto: Enrico Marcovaldi (22/11/2015).

A tríade Samarco-BHP-Vale havia instalado bóias aparentemente pífias, mas de contenção, e depois começou a abrir o calado do rio, uma vala entre a desembocadura e o mar.

O forte assoreamento de um lado, com a água grossa, viscosa e barrenta do rejeito da maior mineradora do mundo, encontrou o vento sul do outro. O único sucesso foi, temporariamente, essa barreira natural. Mar e vento, juntos, em poética tentativa de segurar a tragédia, mas hoje a lama entrou foi mesmo é grossa, oceano adentro – ou afora… Na praia de Regência, litoral do Espírito Santo, na foz, santuário das tartarugas marinhas, point de surf no país, desde 22 de novembro de 2015, por volta das 15 horas, as ondas do mar têm a cor do minério.

Mesmo que tudo desse certo, que as bóias fossem capazes, enquanto “meio Brasil e o mundo” se desesperava e acompanhava o caminhar da lama de olho no relógio, o que parece ter passado despercebido é que a uma ordem judicial se obedecia — e havia duas.

O juiz Thiago Albani Oliveira, da Vara da Fazenda Pública, Registros Públicos e Meio Ambiente de Linhares determinou na sexta-feira (20), dia de Zumbi, que a Samarco alargasse a foz e facilitasse o escoamento da água do rio Doce para o mar; do contrário, multa de R$ 20 milhões em caso de descumprimento, mais R$ 1 milhão por dia. A ação, processo nº 0017045-06.2015.8.08.0030, foi movida no Tribunal de Justiça pela Prefeitura de Linhares, que não concordava em reter a lama no município, como determinado quinta-feira (19) pela Justiça Federal do Estado em outra ação liminar, movida pelo Ministério Público Federal.

O parecer do juiz Oliveira foi elaborado após reunião com representantes do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para estes, a chegada da lama ao mar seria menos prejudicial ao ambiente do que seu represamento no rio Doce. A decisão fala em apreensão de qualquer máquina envolvida na contenção da água e condução dos responsáveis para a Delegacia de Polícia em caso de desobediência. Em sua sentença, ressaltou: “A adoção de medidas mitigadoras dos danos é urgente, mas o rio Doce não é casa da mãe Joana”.

Não há, ainda, como medir a perda de espécies sob a lama que “pavimentou”  os mais de 500 km por onde passou devastando“. O que se tem de concreto, do ponto de vista da praia, é que a desova de diversas espécies de tartarugas que frequentam o litoral do Espírito Santo, em especial a ameaçada tartaruga-gigante, começou em setembro e tem seu pico agora em novembro. Sem ter como prever o futuro, sabe-se que esses animais costumam retornar ao ponto onde nasceram. Do ponto de vista do oceano, a região da foz do Rio Doce é parte da rota, ida e volta, respectivamente julho e novembro, de cerca de 10 mil baleias da espécie jubarte que percorrem 4.500 km da Antártida até a costa brasileira. É nessa época do ano que, oficialmente, por natureza, se dá a temporada reprodutiva da espécie, o que ocorre nos litorais da Bahia e do Espírito Santo. O caminho de ida culmina no Arquipélago de Abrolhos, sul da Bahia, o maior berçário de todo o Atlântico Sul Ocidental. Como estamos no fim de novembro e a “temporada de baleia” acabou, mais sorte tiveram as jubartes, que já retornaram para a sua área de alimentação, na Antártida, com seus filhotes.

Jubartes em Abrolhos. Foto: Enrico Marcovaldi.

Jubartes em Abrolhos. Foto: Enrico Marcovaldi.

“Tudo indica que é muito difícil Abrolhos ter algum impacto”, afirma Marcovaldi. Influem na afirmação, distância (cerca de 300 km da foz), correnteza, toxidade, deposição dos sedimentos. A mancha, entretanto, tende a correr sentido Norte; e o vento Sul — que vem do Sul e corre livre, rumo ao Norte, sem encontrar barreiras, o que o faz ganhar velocidade e deitar coqueiros — deve ficar até o fim dessa semana. Resta observar.

Para quem quiser monitorar o movimento das águas do Rio Doce em relação ao Arquipélago dos Abrolhos, basta acompanhar o trabalho iniciado pelo Laboratório de Radioecologia e Mudanças Globais (LARAMG) da Uerj, que lançou no sábado (20) a página no Facebook Abrolhos Sky Watch. A proposta é publicar diariamente imagens de satélite para visualização de plumas de sedimentos e clorofila-a da região entre a foz do Rio Doce e Abrolhos e, duas vezes por mês, imagens LANDSAT com mais alta resolução. As imagens referem-se as coordenadas 17S-21S e 41W-37W.

Serão postadas seleções da melhor imagem diária destes 2 parâmetros, recortadas especificamente para a área de interesse. Uma imagem de referência será mostrada inicialmente para facilitar a localização dos eventos por parte dos leitores. O objetivo aqui é exibir a dinâmica diária com o máximo de facilidades. Outros produtos de satélite serão postados com pós-processamento nos próximos meses. Duas vezes por mês adicionaremos imgens LANDSAT com mais alta resolução. As imagens referem-se as coordenadas 17S-21S e 41W-37W.

Parâmetros com os recortes das áreas de interesse.

A imagem de satélite de 21/11/2015 da foz do Rio do Doce mostra que os 6km de impacto previstos pelo governo federal foram por água abaixo em 24 horas. Imagem sem pós-processamento, apenas para visualização.  Fonte: https://www.facebook.com/abrolhosskywatch/

A imagem de satélite da foz do Rio do Doce, captada em 21/11/2015, mostra que os 6 km de impacto previstos pelo governo federal foram por água abaixo em 24 horas. Fonte: https://www.facebook.com/abrolhosskywatch/

Atualizado em 23/11/2015 às 19h25.

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Sobre o Rio Doce, no site:

O patrocínio da Vale e a semana do Rio doce em: http://coletivocarranca.cc/encontre-o-erro/

Doc inédito sobre o Rio Doce, 20 anos atrás, em: http://coletivocarranca.cc/o-rio-doce-e-documentario-carranca-edilson-martins/

Licenciamento, FGTS, conceito de desastre natural, tudo facilitado em: http://coletivocarranca.cc/pl-para-simplificar-ainda-mais-os-processos-de-licenciamento-ambiental-pode-ser-votado-hoje-senado/

Outras denúncias do Coletivo Carranca sobre a política ambiental do governo federal:

- Ordem da Casa Civil, áudio na íntegra em: http://coletivocarranca.cc/licenciamento-ambiental/

- O golpe fatal (e era só o começo) em: http://coletivocarranca.cc/nova-portaria-interministerial-602015-licenciamento-ambiental/

- O compilado de todas as matérias em: http://coletivocarranca.cc/nossa-tragedia-ambiental-e-um-projeto/

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Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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