“Não havia líderes”, dispara Tenente Coronel Rocha

Sobre as manifestações que varreram o Brasil, em 2013


Tenente Coronel Rocha em Audiência Pública (28/Abril/2015). Foto: Cristina Froment

Foi realizada ontem (28), na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Audiência Pública com a finalidade de debater o ‘Direito de Manifestação’. Na sessão foram ouvidos professores, garis, vereadores, advogados, ambientalistas, ativistas e policiais. A diversidade dos profissões, das falas, se fez necessária em razão da representatividade de cada setor que entrou em greve nos últimos anos, e que de alguma maneira teve o direito de greve ou manifestação violado pelo Estado, seja por cortes de ponto, por descontos em contra cheques ou por trabalho forçado mediante uso do poder de polícia por parte do Estado. Foi quase que consensual nas falas dos variados setores a desmedida força da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) para reprimir manifestações, greves ou qualquer outro meio de questionar a administração pública.

Foi relatado pelo vereador Reimont (PT-RJ) como fora feita a desocupação do prédio Câmara na noite de 28/09/2013, quando profissionais da educação ocupavam o local para tentar o diálogo com a casa legislativa municipal, na tentativa de negociar o plano de carreira encaminhado pelo Prefeito Eduardo Paes. Sem a apresentação de mandado de reintegração de posse, conforme exige a lei, a Polícia Militar invadiu a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro contrariando não só a lei, mas o acordo feito com o vereador (que também se encontrava na ocupação) de que a casa seria desocupada aos poucos, sem que ninguém fosse empurrado ou agredido.

Quando nós já estávamos preparados pra sair, aquela porta foi arrombada, entraram oitenta policiais militares e desceram o cassete na gente aqui dentro. – disse Reimont.

Logo após a fala de Reimont, o Vereador Renato Cinco (PSOL), que presidia a audiência, interrompeu a sessão para informar que, naquele exato momento, profissionais da educação estavam sendo fortemente reprimidos no Paraná, em seu segundo dia de greve. 

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Audiência Pública pelo ‘Direito de Manifestação’ – Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, 28/4/2015. Foto: Cristina Froment.

Uma carta da Ativista e Advogada Eloisa Samy foi lida por sua mãe, Jacira Samy, já que a ativista não pode estar presente por uma restrição judicial, o que fora questionado na audiência, como sendo uma afronta do poder judiciário ao poder legislativo, atingindo assim a independência dos Poderes. 

Falou na audiência também o Tenente Coronel Rocha, chefe de operações da Polícia Militar, que esteve à frente de unidades da PMERJ no período auge das manifestações em 2013, incluindo o Batalhão do Choque. Rocha usou do seu tempo para relatar a importância da criação do batalhão de Polícia de Proximidade em 2012, e que este teria sido o método aplicado pela polícia carioca nos protestos que explodiram em 2013, mantendo um discurso contrário aos variados setores que ali foram ouvidos. O Tenente Coronel salientou ainda a dificuldade de se aproximar dos manifestantes por não ter havido lideranças, para que assim um diálogo fosse criado.

A gente sabe que essas manifestações não tinha lideranças. – disparou Tenente Coronel Rocha. 

Tal afirmação contraria todo o processo de criminalização do ativismo no Rio de Janeiro, contraria o Inquérito Policial apresentado pela DRCI (Delegacia de Repressão a Crimes de Informática) e a Ação Penal movida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em face dos 23 ativistas. Das dezenas de acusados pelo MP, dois são apontados como supostas lideranças: Igor Mendes da Silva e Elisa de Quadros Pinto Sanzi (Sininho). 

No emaranhado das infindas contradições apresentadas pelo Tenente Coronel, esta revela a cultura do caráter restritivo ao Direito a Manifestação por parte dos órgãos públicos.

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Hare Brasil

Hare Brasil

Logo aos 5 anos de idade decidiu ser advogado, como o déficit de atenção é grande, antes passou pela Música e Teologia. Atuante na área criminal trabalha na defesa dos Direitos Humanos.

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