O MIDIATIVISMO NA TELA DO CINEMA

ESTRÉIA DE "ABAIXANDO A MÁQUINA 2" - ENTREVISTA EXCLUSIVA COM GUILLERMO PLANEL


Regada a cerveja, sexta à noite, Rio de Janeiro, nossa conversa com o documentarista do jornalismo carioca, das FARC na Colômbia, de Moutner em Cuba. Guillermo Planel, o  uruguaio de Montevideo, do Rio desde 1971. O cara com a cara do Corisco tatuada no braço. O jornalista por formação, o fotojornalista por paixão, o documentarista por militância. A relação da imprensa e do fotojornalismo com a sociedade, direitos humanos, conflitos armados e América do Sul estão em seus filmes. E já são nove.

O primeiro “Abaixando a Máquina” expõe uma “discussão sobre a mídia e sobre o direito desta mídia de entrar em conflitos e na representação da dor das pessoas”. Agora, dez anos depois, o “Abaixando a Máquina 2, é mil vezes mais importante porque discute uma realidade muito perto da gente” – explica.

“Abaixando a Máquina 2 – No limite da linha”, que estréia hoje (17) no cinema Odeon, Cinelândia, Centro (político) do Rio, aborda os levantes populares de 2013 no Rio, a morte do cinegrafista Santiago Andrade em 2014, e a partir da cobertura dos grandes veículos de comunicação em plena crise econômica e de ética, com demissões em massa e precarização do trabalho como regra. Quem conta essa história são os jornalistas, fotojornalistas, midiativistas e ativistas vítimas do jornalismo, todos viveram e cobriram as manifestações populares, nas ruas. Entre os independentes, são entrevistados do filme os midiativistas Raquel Boechat e Hare Brasil, do Carranca, Daniel Cruz, do Mariachi, Patrick Granja, da AND e Paula Kossatz.

Frame de "Abaixando a Máquina 2 - No limite da linha".

Frame de “Abaixando a Máquina 2 – No limite da linha”.

 


Todos falam ao mesmo tempo. Uma zona. Mal conseguimos transcrever o áudio desse trecho inicial da entrevista. A primeira parte dela publicamos hoje. O falatório gira em torno de como sobreviver (na militância) sem $$$. Na roda do papo e da cerva, com a gente, o fotógrafo Paulo Múmia.

Guillermo - Chega um ponto que você tem que parar de pensar como diretor. Com a crise eu tive que acabar com a produtora. Tive que demitir até meu filho.

Raquel - A militância é um eterno movimento de resistência…

Guillermo

Guillermo – Sim, pois não é pra você ganhar dinheiro, mas difundir as ideias. Pra isso você tem que ser e pensar também como produtor. Quantas ideias boas você pode vir a ter ao fazer um filme desses? Eu comecei em 2013 e não sabia o que eu ia fazer, mas você tem um processo, um fluxo. Esse é um tipo de  filme que, na realidade , eu demoraria 9-10 meses pra editar. Mas eu cheguei a trabalhar 26 horas sem parar. 20 horas era quase toda semana e 18 horas todo dia. Eu lembro de ter ouvido em uma palestra:Além de ganhar dinheiro, o que te motiva?” Eu ri né, pois é um processo voluntário. Não tem função ganhar dinheiro. Pro meu filme sobre as FARC eu passei 8 meses indo a Brasilia para conversar com os comandantes das FARC no Brasil. Oito meses indo a reuniões, pagava do meu bolso, tomava um café e voltava. A militância na mídia corporativa (refere-se a seus filmes em canais privados), como qualquer pessoa que trabalhe nisso, o que se busca é o mínimo de dignidade pra continuar seu trabalho. E no dia que eu tiver, se um dia eu ganhar dinheiro pra caralho com isso, eu sou um escroto. Eu juro pelos meus filhos. Pode me chamar de escroto.

Paulo Múmia – Mas você não pode ganhar dinheiro?

Guillermo – Eu fiz filme pra Fiocruz, fui agora pra Amazônia… fazer documentário pra ganhar dinheiro eu faço! E nem isso me salvou dessa merda toda.

Hare – Você montou uma vida produzindo conteúdo independentemente sem ganhar dinheiro. E quem não consegue? E os midiativistas, incluindo os que moram na favela, que não conseguem tirar dinheiro nenhum?

Guillermo – Eu não sou melhor do que ninguém, e vocês não estão com o Carranca aí, sem dinheiro nenhum, há 3 anos? E não têm o seu valor? Eu também não tenho (dinheiro)! Tenho sócio, pego um dinheiro com alguém, devolvo pra outro… Eu sempre mantive a produtora com 5 ou 6 pessoas pra produzir filmes. Todo trabalho de militância que eu fiz nessa produtora foi com o trabalho de fazer outros filmes e fotos. Pra você fazer essa militância você tem que arrumar um meio de fazer isso. Vocês (Raquel e Hare) estão se formando esse ano (em Direito), daqui a 10 anos vocês vão estar com uma condição econômica que vai permitir fazer aquilo, e vai fazer como eu faço, tem que saber diferenciar… e existe um custo. A militância, apesar de ser uma palavra um pouco forte, na verdade é isso: fazer um filme colaborativo assim, como o Abaixando a Máquina 2, se entrar muito dinheiro, fodeu tudo, até porque aí você perde o apoio de todo mundo, perde apoio popular. O dia que o Carranca ganhar muito dinheiro você vai ser mais um, vai fazer parte do sistema que você luta contra. Nesses filmes eu tenho deficiência financeira, literalmente uma ruína financeira, pessoalmente eu, mas não me arrependo disso. O dia que eu empatar isso eu continuo a fazer o meu trabalho. Agora, no dia que eu ganhar dinheiro pra caralho, perdeu o sentido de tudo.

Paulo Múmia – Então o seu trabalho não tem valor?!

Guillermo – Claro que tem valor, porra! Pra caralho! Você não tá entendendo, Paulo, tem é que ter o pagamento justo do meu trabalho. Eu não to dizendo que eu tenho que me foder, eu to dizendo que não posso enriquecer com isso. Vou fazer o Abaixando a Máquina 2, vender pra Rede Globo, ganhar 10 milhões de reais…?! Porra, tu vai dizer, “maior escroto! Me fodi pra ajudar o cara e ele ganhando dinheiro pra caralho com isso!”. O que eu to dizendo é que a justiça é essa: empatar pra poder difundir suas ideias.

Raquel – Você tem “Abaixando a Máquina” bruto (material inédito, não editado), o suficiente pra quantos filmes?

Guillermo – Tenho… e outros de outros filmes.

Raquel – De “Abaixando a Máquina”(1) para o “Abaixando a Máquina 2″, o que você buscou em cada um, o que esse novo traz de novidade, o que que arremata essa história?

Guillermo – Isso é muito difícil. Na verdade o Abaixando a Máquina (1) foi um trabalho de finalização de um curso (de pós), me surgiu essa ideia a partir de um texto. Desde criança eu tenho paixão por fotojornalismo, comecei a fotografar aos 18 anos em 1978, e o Abaixando a Máquina foi um processo natural de fazer isso. Eu outro dia fui no show do Rolling Stones e pensei como deve ser cantar a mesma música há 53 anos. O cara não deve aguentar mais um acorde! Esse filme, tecnicamente, ele não tem essa perfeição, mas esse de agora é muito mais importante no conceito. E na verdade um filme tem vida própria, isso aprendi desde o começo. Será que tá bom? Será que tá legal? O filme ele vai crescendo. Ninguém pode dizer que o filme é bom ou que ‘meu trabalho é bom’. Na verdade um disco, um filme, um ‘Hare’, qualquer processo de criação tem vida própria. A cada dia você aprende com o filme que você faz, a cada uma é uma análise diferente. Uma pessoa vê, você (Raquel) falou ali “a minha fala tá condizente com a fala da Sininho” – o filme conseguiu fazer isso. O filme tem vida própria por causa disso, as pessoas vão falando, o filme vai crescendo, eu acho muito melhor esse é processo. Agora, esse filme é mil vezes mais importante que o outro por causa disso, e porque ele discute uma realidade muito perto da gente – e é tão perto que no dia 6 de fevereiro, sábado de carnaval…, viram aquela cena do cara roubando na rodoviária? Eu tava com o Patrick (Granja) passando de carro na rodoviária e passei de carro e falei – segura o carro aí, Patrick! E gravei com celular, praticamente um mês antes do filme ficar pronto.

Hare – O que prova a importância das novas tecnologias pro novo jornalismo…

Guillermo – Caaaaralho! Eu tenho duas Canon 5D, tenho Nikon… Só sai com essa porra (celular) aqui. Isso é bom pra caralho. Ainda taquei umas lentezinhas que você bota aqui (no celular).

Hare – Lentezinha pra celular?!

Guillermo – É rapaz! Custa 20 pratas na Candelária! Tem fish eye, grande angular e tem zoom! É um clips, um grampeador que você bota aqui e pum! É sensacional!

Raquel – O Abaixando a Máquina 2 te entregou o que? Que respostas?

Guillermo – Você (Raquel) fez (outro dia) uma porrada de conclusão, como esse problema de vaidade dentro de um debate que é tão importante. Eu acho que a questão do midiativismo, no meu entendimento, apesar de não ter uma continuidade como deveria ter tido e como seria justo ter, enquanto do outro lado o jornalismo corporativo tá indo pro buraco e tá tudo acabando, no final vai ser isso tudo, e acho que dentro da importância do filme é exatamente isso. Eu vejo uma participação, eu vejo um tesão, uma vontade, muito mais dentro dessa questão do midiativismo do que no jornalismo corporativo – sendo que sou amigo de todo mundo, sou jornalista formado e nunca trabalhei (como jornalista)… tenho grandes amigos ali, mas neguinho tá assim… num processo assim de fim de carreira. O fotojornalismo, por exemplo, tá acabando. Tá acabando mesmo…!!

Hare – Por conta do midiativismo? Ou..

Guillermo – Não! Não! Não é por conta do midiativismo, é por conta deles mesmos que se implodiram! O jornalismo se implodiu! A forma de comunicação na ‘lei’ da internet acabou com esses parâmetros…

Raquel – Um novo paradigma, um tipo de morte…

Guillermo – É, é… Mas também, na realidade, se não existir no midiativismo, nessa comunicação alternativa, nessa comunicação com militância, se não tiver essa continuidade, um ‘repensamento’… Acho, também, que vocês têm divisões pra caralho, muita briga, o outro é maoísta e não gosta de fulano – caralho! Foda-se! Vamos falar de um assunto? Vamos falar daqui? Eu consigo ser amigo de todo mundo, eu não sou amigo de escroto! Na realidade o midiativismo ele tem uma carreira que é o futuro! É isso! Porque não existe espaço para essa mídia corporativa. Os jornais vão virar semanários de bons caras escrevendo sobre coisas que interessam a eles! É isso no que vão se transformar. O fotojornalismo nunca vai acabar, mas vai fazer parte de materiais especiais. Daqui a 10 anos O Globo vai virar um Le Monde da burguesia, acho que é isso, pra uma classe dominante.

Hare – E é com todas as diferenças que a parada funciona. Outro dia demos entrevista pra TV Brasil e a apresentadora achou nosso pensamento homogêneo. E eu falei – se você ver o nosso ‘inbox’ vai ver caô atrás de caô, a gente discorda pra caralho… Tem gente que é maoísta, tem gente que é anarquista, tem gente que é comuna… E no fundo no fundo todo mundo é meio que a mesma coisa! Parece que ainda não houve esse ‘up’…

Guillermo – Você definiu a coisa: o grande problema da esquerda são essas divisões e a direita sempre soube, historicamente, se reagrupar muito melhor. Por isso que a direita tá sempre dominando.

Raquel – Ouvi de um militante de esquerda que de repente a direita tem mais competência mesmo. Como se em algum momento algumas características que a direita tem do ponto de vista de se fazer vitoriosa e de sustentar suas correntes…

Paulo Múmia – É nisso que a esquerda se fode! Porque a direita se une!

Guillermo – Eu acho que o midiativismo não pode cair nesse mesmo erro da esquerda – e nós somos esquerda! Nós somos ativistas de esquerda! Esses conceitos de divergências devemos relevar para um futuro mais próximo. Agora, a preservação disso é a seguinte: qual é o futuro da comunicação? É o midiativismo – o midialivrismo ou a mídia independente, como queira! E de que forma vai ser isso? Não é uma posição moralista que estou botando? O inimigo é outro. E é maior.

Hare – E o que acontece é que a esquerda é orgânica, vai mudando a sociedade e com a sociedade, parece um mar revolto, porque ela é viva. A direita é o oposto, a direita ela é morta, reacionária. O cara reacionário dos “anos 60″  vai encontrar com o do ano 2000, e “tamo junto” porque a direita é morta, não muda! O desafio da esquerda é que ela tá viva, e é aí que a gente discute, e essa discussão mutas vezes vira palco para o orgulho!

Guillermo – A Sininho diz isso, “é muito ego”. Quem trabalha com imagem é egocêntrico – fotógrafo, cinegrafista… Claro que eu gosto do meu filme, mas nada além ‘daquilo’. Mas se eu não posso olhar pra foto de um cara e dizer que tá maneira, e caguei se você não é profissional. Gravei aquela pseudo-prisão do cara com um celular e botei num longa-metragem e ainda botei de cabeça pra baixo e tive que ajeitar na edição!

Paulo Múmia – Você não aprendeu no RJ (telejornal da Globo RJTV)! “Filma na horizontal!”.

Raquel – Quando eu fotografava de celular os fotógrafos me empurravam porque achavam que eu não era nada e tava ali no meio…

Guillermo – Aí entra também essa discussão, o Paulo Araújo fala isso, quando entrevistei ele… Como é que essa mídia Rede Globo voltou a fazer essa cobertura de conflitos nas favelas e nas comunidades carentes, através de uma mídia gratuita – que na realidade só tem áudio e você não tem apuração de nada – e o Fachel (Flavio Fachel, apresentador do RJ TV) manda – “óh, filma na horizontal, heim?!” 

Hare – Exatamente! E além de pegar o repórter gratuito vai pegar matéria nossa, do Carranca, como já fizeram, ou do Mariachi.

Guillermo – Caralho! O que que virou? O que que virou a polícia senão uma investigação de câmera de prédio? O que seria a investigação de um crime pela polícia civil se não fossem as câmeras de prédio?! Seria nada! O que seria do jornalismo hegemônico se não fossem esses telefones mandando as porras pelo whatsapp?! Por que?! Por que que o jornalismo hegemônico voltou a noticiar nas comunidades? Porque não vai mandar um repórter para se arriscar com tiro na cara. Ele vai pegar um negócio gratuito! E a pessoa que não é jornalista ainda vai falar: “minha matéria passou no RJ!

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SERVIÇO

Estreia seguida de debate mediado por Dante Gastaltoni, professor de fotojornalismo da UFF e UFRJ, com Marcelo Carnaval, fotógrafo do jornal O Globo; Paulo Araújo, ex-fotojornalista do jornal O Dia; Patrick Granja, cinegrafista do Jornal Nova Democracia; e Hare Brasil, midiativista do Coletivo Carranca.

Até o dia 23 de março, o espaço recebe a exposição Fé, Luz e Sombras, do fotógrafo Severino Silva, um dos entrevistados do documentário e que cedeu imagens para o filme.

Abaixando a Máquina 2 – No limite da linha

Data: 17 a 23 de março

Horário: 20h30

Local: Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (Praça Floriano, 7 – Centro)

Valor: R$ 24,00 inteira / R$ 12,00 meia

Ingresso à venda na bilheteria ou através do site ingresso.com

Classificação: 12 anos

 

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Hare Brasil

Hare Brasil

Logo aos 5 anos de idade decidiu ser advogado, como o déficit de atenção é grande, antes passou pela Música e Teologia. Atuante na área criminal trabalha na defesa dos Direitos Humanos.

Leonardo Soares Coelho

Leonardo Soares Coelho

Fotógrafo e jornalista

Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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