Onde se vendem os monstros

O monstruáRIO2016 de Rafucko


O Rio de Janeiro “Cidade Global”, que está à venda nos últimos anos, pode ser visto mesmo frente às turbulências políticas, sociais e econômicas que vêm acontecendo no Rio e no Brasil. A versão institucional fala de uma nova cidade, de uma nova aliança entre os que nela vivem e a urbe. Mudanças, mudanças, mudanças. Trajetos de ônibus, pacificação, renovação aqui, reforma acolá. Só que aqui, no Rio real, algumas coisas se perdem enquanto esse outro Rio se transfoATO PRO-GOVERNO-RJ- 18/03/2016rma.

Mas o que é que se perde?

Essas coisas que se perdem – ou são convenientemente esquecidas – parecem formar o núcleo da mostra Monstruário, de Rafael Puetter, o Racfucko, a partir de hoje (2/4) no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, no centro do Rio de Janeiro.

Quando questionado – de modo extremamente clichê – sobre o que lhe move enquanto um artista-ativista, Rafucko coloca que o que lhe interessa é a “interseção entre corpo e território, principalmente os de corpos minoritários, como os de favelados, homossexuais, indígenas, etc.”. O seu chinelo tipo-havaiana mostra bem essa união.

Esse produto, composto dentro da Residência Artística ComPosições Políticas, fomentada na Favela da Maré junto a outros colegas, é apenas uma das várias possibilidades de “consumo” para quem for à mostra. Há outras vendas imperdíveis, como os bonecos (fofos, tipo “de pelúcia”) Tratorzinho e Caveirinha, as canecas estilo presente-de-aniversário-do-papai com a cara do (José Mariano) Beltrame, o secretário de segurança do Rio genitor do questionável projeto das UPPs, que tirou muitos pais, mães e filhos do seio de suas famílias. Mas há mais.

“Há também um quebra-cabeça com 111 peças e os carrinhos miniatura lembrando o caso dos meninos fuzilados em Costa Barros, panos de prato com capas do jornal o Globo, postais com pedaços do que sobrou da Vila Autódromo, etc.” – explica Rafucko.

Conhecido por seus vídeos, acidamente construídos e críticos a essa cidade espetáculo que vem se desenhando desde o início dos anos 2010, Rafucko, ironicamente, esteve nos últimos meses, meio “parado”, voltando muito recentemente para o formato que o fez conhecido. “Eu interrompi a produção de vídeos porque acreditava que as pessoas estariam abertas ao diálogo; depois de um tempo, eu percebi que muitas não estavam, e isso foi me deixando desesperançoso, até porque eu não queria apenas “pregar” para os convertidos” – relembra. Mas a situação calamitosa da política regional e nacional o convenceram mais uma vez a expor suas opiniões. “Eu não conseguiria imaginar isso em 2013 de maneira alguma”, confessa Rafucko quando questionado sobre a verdeira novela mexicana, ou tupiniquim, que vem rolando todos os dias através dos jornais, radios e tv´s. Haveria vilões e mocinhos quando se fala de Dilma, Temer, Lula & Cia?

O que é certo é que tal visão de mundo quase esquizofrênica criou um novo meio termo, julgado pelos extremistas de todos os lados e igualmente desejado: o isentão.12814760_1035690819805835_7496780114604840439_n Aquele que é contra “tudo e todos” e quer “apenas o bem do país”. Rafucko, como muitos outros, tem tentado não se deixar abraçar por essa falsa dicotomia que a política atual vem proporcionando nessa mitologia pobre de coxinhas e petralhas. Ele viu como seu posicionamento ideológico alterou suas perspectivas profissionais abrindo inúmeras portas, ainda que fechando outras. Ele viu o governo dito de esquerda do PT promovendo as UPPs, os agrotóxicos, a construção de Belo Monte e outras perseguições antes inenarráveis a um partido dito progressista. “As pessoas tão vendo essa questão de um modo extremamente bidimensional. Nós vivemos em uma realidade com três dimensões” – avisa o artista, enquanto continua montando seu horrível monstruário para o consumo crítico daqueles que querem ver o backstage desse grande espetáculo de horrores que é o Rio de Janeiro.

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Leonardo Soares Coelho

Leonardo Soares Coelho

Fotógrafo e jornalista

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