Podemos tirar, se achar melhor


A grande imprensa largamente divulgou, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, disse com todas as letras na coletiva (veja aspas mais abaixo), mas na Agência Brasil, do governo federal interino, a notícia com a manchete “CNI defende carga de 80 horas semanais para trabalhador brasileiro” ganhou nota de errata avisando o link da matéria “corrigida” para “Presidente da CNI defende mudanças previdenciárias e nas leis trabalhistas”.

Pelo menos teve nota avisando a mudança. Rodando a internet, parece que só a EBC errou.

manchete UOL

manchete Veja

 

 

 

 

várias no google e globo

várias no google

Para alívio de alguns leitores, no portal IG a carga horária proclamada tinha 20 horas a menos – ainda a Agência Brasil como fonte.

manchete IGA CNI divulgou comunicado informando que o presidente da entidade “jamais defendeu o aumento da jornada de trabalho brasileira”, limitada pela Constituição Federal em 44 horas semanais.

Conforme o JB, após mais de duas horas de reunião com o presidente interino Michel Temer e com cerca de 100 empresários do Comitê de Líderes da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), nessa sexta-feira (8), o presidente da CNI disse que, para o governo melhorar a situação do deficit fiscal, serão necessárias “mudanças duras” tanto na Previdência Social quanto nas leis trabalhistas. Temer deixou o evento sem falar com a imprensa.

O trecho da coletiva em que o presidente da CNI faz a declaração à imprensa:

“Nós estamos ansiosos, na iniciativa privada, de ver medidas muito duras. Duras que eu digo, medidas modernas, mas medidas difíceis de serem apresentadas. Por exemplo, a questão da Previdência Social. Tem que haver uma mudança da Previdência Social, se não nós não vamos ter no Brasil um futuro promissor. As questões trabalhistas, nós vemos agora a França promovendo, sem enviar para o Congresso Nacional, tomando decisões com relação às questões trabalhistas.

Nós aqui no Brasil temos 44 horas de trabalho semanais. As centrais sindicais tentam passar esse número para 40. A França, que tem 36 horas, passou agora para 80, a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal (sic, são 60 horas) e até 12 horas diárias de trabalho. A razão disso é muito simples, é que a França perdeu a competitividade da sua indústria com relação aos outros países da Europa. Então, a França está revertendo e revendo as suas medidas para criar competitividade.* O mundo é assim. A gente tem que estar aberto para fazer essas mudanças. E nós ficamos aqui realmente ansiosos para que essas mudanças sejam apresentadas no menor tempo possível”.

O case da Agência Brasil não é novidade no jornalismo da vida real e parece derivar do recente clássico “podemos tirar, se achar melhor“, episódio que ficou famoso, em 2015, quando um “bilhete” apontando para uma possibilidade de blindagem do governo Fernando Henrique Cardoso numa matéria da Agência Reuters ficou esquecido no meio do texto publicado. Confira a lembrança do ano passado, na imagem abaixo.

Reprodução da matéria que foi ao ar.

A propósito de uma boa aula de jornalismo, seja você contra ou a favor da tese do golpe ou do impeachment, recomendamos a entrevista feita por Mehdi Hasan, da Al Jazeera, com o ex-presidente FHC, de Julho/2016.

Sobre as “80 horas”, veja também: http://coletivocarranca.cc/nao-pense-em-crise/

* o hiperlink é da redação Carranca. Para entender a situação na França.

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Ana Fellows

Ana Fellows

Bióloga, Pesquisadora e Tradutora.

Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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