As populações negligenciadas e a xenofobia brasileira: o Ebola como analisador


Foto: :(Flickr) European Commission DG ECHO (Jan/2013) - 4 meses depois do 1o caso confirmado de Ebola na Guiné

Entre um post sobre as eleições e outro, começam a surgir nas redes sociais notícias alarmantes sobre o primeiro caso de Ebola registrado no país. O primeiro caso de suspeita no Brasil ocorreu ontem, no dia 10 de Outubro, em Cascavel, Paraná, como noticiaram a mídia e o próprio Ministério da Saúde. A notícia, que deveria ser de interesse das autoridades sanitárias, provocou reações xenófobas nas redes sociais. “Deveriam queimar e mandar para a África”, “Fecha a África”. Mais perigoso do que o primeiro Caso de Ebola contraído fora do continente africano, como confirmado na Espanha, talvez seja a disseminação viral do preconceito e da xenofobia. O homem negro da Guiné virou um importante ator para se entender porque o Ebola ainda mata tanto na África.

No cenário internacional, onde a ascensão de forças extremistas islâmicas – ISIS - parece ser o grande inimigo, surge como um retorno à animalidade uma “febre hemorrágica” entrar no cenário das preocupações mundiais. Nesse jogo ‘war’, as atenções devem ser dadas aos países onde não existem sistemas de saúde público, como Estados Unidos e muitos países africanos.

Não é de se espantar que países como Cuba e Brasil sigam os protocolos da Organização Mundial de Saúde. Cuba, muito mais do que o Brasil, ainda operam em Sistemas de Saúde Nacional em modelos sanitaristas de saúde integral e não em medicina diagnóstica, esse último sendo o modelo defendido pelo Conselho Federal de Medicina Brasileiro.

O Ebola é muito menos fatal do que se imagina, apesar de 50% de mortalidade ser alta em medicina. Já a África, desde há muito tempo, é a região onde a população pode morrer. A ‘ajuda internacional’ para o combate do Ebola é insignificante, já que somente paliativa. O investimento para controlar a doença, já que endêmica na região, só surtirá efeito quando o continente for tratado como ator internacional, com políticas de saúde e saneamento básico sem interferências da indústria farmacêutica e da corrupção local. As epidemias de Ebola são recorrentes, mas a desse ano tomou proporções mais sérias com relatos de falta de equipamento de proteção, resistência de moradores, isolamento compulsório de vilarejos e a negligência da comunidade internacional.

Nesse pacote, o ‘esclarecimento’ da população brasileira também carece de informação. Com recordes anuais no investimento do controle da Dengue, sabe-se que nenhum programa de saúde vinga sem a ação ativa da comunidade. Entre comentários que questionam a capacidade do país em controlar um possível surto de Ebola, o Instituto Evandro Chagas, para onde o paciente com suspeita foi encaminhado, é referência nacional em infectologia e com equipamentos necessários para conter a proteção de contato do atendimento à análise clínica. Para além do aparato técnico é o instituto que informa em sua página inicial: Brasil pode ter epidemia de Febre Chikungunya.

A Febre Chikungunya que é transmitida pelo Aedes Aegypti, o mesmo que transmite a dengue, segue proliferando no Brasil. Nesse caso, parece mais fácil duvidar dos profissionais de saúde brasileiros a auto-questionar a própria população nas ações nada tecnológicas que envolvem a contenção dessas doenças tropicais, como no clássico ‘não deixa a água parada’.

Relatório da OMS informa que o ebola matou 2,4 mil pessoas de 4784 casos na África Ocidental. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, até o momento, foram 534.787 suspeitas de caso de Dengue e 807 casos suspeitos de Febre de Chikungunya. Assim como o Ebola, quanto mais o vírus permanece no corpo humano, mais as chances de gerar mutações, e é nessa linha de quem parece prever o fim da humanidade que especialistas alertam para o risco do Ebola sofrer mutações e ser transmitido pelo ar, e não somente pelo contato com fluídos corporais. A ironia é que Dengue no Brasil, que já tanto sofreu mutações, está no tipo 4.

É importante ressaltar que com o aquecimento global, as áreas onde as doenças tropicais atuam começam a alargar. A Dengue conta com possíveis cenários de epidemia nos Estados Unidos e Japão.

Como sempre, à la brasileira, o inferno são os outros, e de preferência, da cor negra. Como em um apartheid global, a África continua sendo o continente onde doenças são desculpas para o morte de tantos carentes de recursos e políticas públicas. Que os casos suspeitos e confirmados do Ebola venham a óbitos nos países do centro é uma fatalidade, agora a xenofobia, essa parece seguir cada vez mais forte.

 

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Rui Massato Harayama

Rui Massato Harayama

Antropólogo, Colaborador da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. Ativista do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

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