Por cima dos panos


Antigamente havia uma discrição, um pormenor, um “talvez a população não aprove”, um comedimento de ações.

Nem sei pontuar quando foi esse antigamente, ou se simplesmente eu é que não queria acreditar que os políticos e a política brasileira é tão descarada, indecente, escatológica.

De acordaço multipartidário para enterrar investigação que incomodava e prendia demais, passando por saquinho de “açúcar” flagrado em plenária de julgamento de cassação de presidente, chegamos a um helicóptero de senador conservador anti-drogas pousado em sítio de família de outro senador conservador anti-drogas com 500 quilos de pasta base de cocaína proibido pela justiça de aparecer nos mecanismos de busca do Google, lembrado apenas por aqueles que insistem que a história e memória recente devem permanecer. E nada, absolutamente NADA, acontece com esses caras. Com nenhum deles.

O presidente interino assume, mas não gosta de vaia, acha que não é justo a família sofrer pressão popular e não vai tolerar a pecha de golpista. Já mostrou que também não gostava do outro apelido carinhoso, o vice-decorativo, de forma a se tornar o presidente-do-golpe-legal.

O que ele e todo o seu aparato fará para silenciar os milhões que passaram o dia engasgados com um segundo impeachment na história do país, promovido pelos 3 Poderes (sim, o golpe legal foi comungado pelo legislativo, executivo e judiciário conforme Jucá havia sugerido em um de seus telefonemas grampeados, incomodou muita gente) eu não sei exatamente, mas posso quase adivinhar.

O presidente que não tolera ser chamado de golpista aparenta participar de todo o descaramento, melhor, o descortinamento dos objetivos e (falta de) ética dos políticos brasileiros, a despeito da vontade da população ou ainda de seu dever de representação. Assim, duvido muito que se preocupe em ser sutil nas ruas com quem gritar contra seu nome. Aliás, ele pode até usar a lei anti terrorismo nascida da caneta da Dilma, ao apagar das luzes, para fazer valer o sumiço definitivo da palavra golpe da boca e do dicionário da revolta popular.

Mas o engasgo que o circo político provocou na população atravessou a ridícula polarização que serve mais às escatologias morais dos agentes políticos hoje no poder e chegou onde eles não gostam: indignação com ação. Há muito tempo eu não via convocações nas redes sociais para participação em protestos #ForaTemer com disposição para a reação agressiva, para a demonstração de insatisfação com o uso da ferramenta popular que assusta quem sempre tenta ensinar que o brasileiro é o pacato cidadão: com violência, ainda que unicamente, até o momento, aos bens patrimoniais públicos e privados.

Não é pelo PT. Este prossegue e permanecerá na cooptação da revolta. Não tenho dúvidas que existe um “acordão” multipartidário para paralisar de vez as investigações que resultam em delações premiadas. A continuidade das investigações coordenadas por um juiz obcecado em atingir Lula e Dilma faria cair todo o parlamento e o alto executivo antes de chegar neles. Nem o PT quer isso. Temer veio, como Jucá disse, para estancar a sangria. Temer veio para arroxar a população na crise que vivemos e que se prevê melhorar a partir de 2018, quando, talvez, Lula voltará à presidência para a redenção. Pelo menos parece um plano viável, dá para fazer um pequeno intervalo de dois anos no plano de poder de 30 do PT. E para os outros partidos? Tudo bem, desde que pare de acusar políticos e eles possam continuar suas vidas exatamente como antes das delações.

Até o Temer, que é um presidente inelegível, não nutre mais importância do que a que realmente tem: seguir a agenda liberal e de austeridade e abafar e obedecer aos interesses da manutenção do poder aos que estão ao seu lado. Uma marionete capaz de pisar na cabeça da população, mas uma marionete.

A indignação que uniu esquerdas assistindo a TV Senado também não é só pela Dilma, uma senhora que demonstrou uma força incomum durante a sabatina mas que irritou muita gente ao sorrir ao lado de Aécio. Simplesmente ela sabe como é o jogo político. Pra eles, não é pessoal

. Faz parte. Só foi pessoal mesmo para a massa de manobra verde-amarela ao demonizar uma mulher ocupando a presidência.

A indignação coletiva, que subitamente sentiu vontade de “quebrar tudo” – mas ainda não o fez – veio de finalmente enxergar o descaramento da política brasileira. Do descaramento de usar o velho e doente jargão “pelo povo brasileiro” – e aí entra família, entra Deus, entra quem estiver na roda – para justificar interesses exclusivamente pessoais ou para ocultar possíveis crimes ou para se beneficiar de algum jeito da situação.

Foi de uma indignação coletiva que vieram as jornadas de junho de 2013, duramente atacada por quem hoje compartilha do sentimento de quem viveu aquela época. Não foram pelos 20 centavos antes, e não é pela Dilma e PT hoje.

O ForaTemer, o Temer Golpista, é pela sujeira, pela mentira, pela falta de respeito com que cada pessoa sob a batuta de qualquer governo que assuma esse país é tratada.

Que a indignação não se mostre em mais cirandas e sambinhas. Que a raiva em ser humilhado diariamente, pisoteado, massacrado, não seja coberta pelo pano da falácia “brasileiro é Pacífico”.

Quando os políticos se sentem tão à vontade para agir e corromper por cima dos panos mesmo, é sinal que já passou da hora da população demonstrar que o modelo representativo está ultrapassado e as rédeas desse carro desgovernado precisa voltar às mãos do dono: o povo.

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Frons

Frons

Sem cor e sem forma, espírito errante que inspira os que lutam por liberdade e justiça, onde um cidadão se levantar contra a opressão, ele estará presente.

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