“Queima catraca! Queima Haddad!”

"Não existe amor" ao PT?


Manifestação do Movimento Passe Livre 06/fev. Imagem: Rui Harayama
Manifestação do Movimento Passe Livre 06/fev. Imagem: Rui Harayama

Dia 06 de Fevereiro de 2014.

Na sexta-feira que comemorava os 35 anos de fundação do Partido dos Trabalhadores, o sociólogo Rudá Ricci acompanhava ao vivo pelo portal do PT as comemorações do Partido que ajudou a construir, mas que há tempos não é mais filiado. Comentando as cenas, postou em sua página de Facebook:

 

“Dilma, eu te amo!”. O máximo de politização dos discursos até aqui na comemoração dos 35 anos do PT. Saiu da boca do governador da Bahia. Um dia, este partido chegou a fazer análise política.

 

O governador da Bahia em questão é Rui Costa, do PT (13) da Bahia, que no mesmo dia 06 de Fevereiro fez outra declaração cheia de amor ao afirmar que o assassinato dos 13, ops 12, homens em Salvador foi resultado da decisão correta dos policiais e que ocorreu “dentro da lei, igual ao artilheiro quando está de frente para o gol”. 

Dois gols contras em um mesmo dia. Será que rola uma axé para celebrar o Gol?

No mesmo dia, na cidade de São Paulo, manifestantes, em sua grande maioria jovens, se reuniram em frente à Prefeitura para o 7° Ato contra a Tarifa puxado pelo Movimento Passe Livre (MPL). Diferente da estratégia adotada no ano passado, quando o clamor pelo #VemPraRua foi atendido por setores fascistas da população – e até mesmo por marketeiros para vender carro -, o movimento decidiu esse ano por movimentos de base nas periferias, nos extremos da cidade – como já foi mais de uma vez anunciado em seus famosos jograis de finalização do ato, quando os mesmos podem ser finalizados e não simplesmente dispersados com bombas de gás e truculência policial. O fim da manifestação teve a queima da catraca acompanhada de um coro “Queima Catraca! Queima Haddad!”.

Há algo que começa a mudar no sentimento da população em relação ao PT Nacional.

Na cidade de São Paulo, o romance entre setores da esquerda com o Prefeito Haddad começa a apresentar sinais mais fortes de desgaste e cresce o sentimento de aversão ao Partido dos Trabalhadores. Um sentimento que no Rio de Janeiro, por exemplo, é muito mais evidente.

E ninguém entendeu como isso se deu. Se foi associado com a ida de Juca Ferreira com a debandada da expertise do Fora do Eixo para Brasília, se foram as manifestações do Passe Livre, se foi o e-mail do Jilmar Tatto (Secretário Municipal de Transportes) enviado a todos os cadastrados na SPTrans fazendo propaganda do Bilhete Mensal em clara resposta às críticas ao aumento, se foi a propaganda da Prefeitura que diz “Passe Livre pra estudantes” em clara corruptela da bandeira do Movimento Passe Livre, se foram as ciclofaixas sinuosas sobre o terreno acidentado de São Paulo, ou se foi a política e/ou marketing pesado voltado para o centro de São Paulo e as áreas nobres que venderam o slogan “Fazendo uma cidade mais humana”, humana para quem?

Fato é que em 2015 o tempo fechou para a prefeitura petista na cidade de São Paulo. E o governo do ‘Prefeito Gato‘ se vê às voltas com a ruína de sua popularidade, atingindo 44% de ruim/péssimo, segundo pesquisa do DataFolha divulgada em Fevereiro desse ano.

Mas talvez não seja somente a avaliação do DataFolha o indicador suficiente para entender a real crise que se forma no basfond político paulistano. Diversos movimentos sociais começam a contestar a atuação do prefeito que, segundo os críticos, só governa para uma elite cultural que circula no eixo Paulista-Pinheiros-Vila Madalena. A crítica é direta em alguns casos e veladas em outros. A página do Facebook Haddad, Prefeito Gourmet criada no final de janeiro desse ano foi logo citada em polêmica entrevista do prefeito Haddad ao El País. Apesar de apresentar a crítica em forma de humor, ou um humor em forma de crítica, a página reflete um momento de transição na forma como até os apoiadores do PTismo liberal estão se distanciando do partido.

Dentro da Prefeitura, a imagem de uma administração humana e amiga do povo há tempos não funciona. Informantes contam que a tática da administração é a velha estratégia de ocupar e aniquilar vontades alheias, principalmente nas consultas populares, algo que lembra a estratégia do PT antes da fase Lula ‘paz e amor’. Durante a Conferência que resultou no Plano Diretor Municipal da Cidade de São Paulo, a imagem de Nabil Bonduki, então líder do PT na Câmara de Vereadores, era visto andando pelas diversas salas onde os grupos de trabalho se reuniam para sondar a discussão. Com ele, jovens técnicos de cargos comissionados da Secretaria de Desenvolvimento Urbano que vinham de outros governos do PT, como de Autarquias Federais. O perfil desses ‘jovens’, que aparecem na época da eleição como militantes (como no caso dos amigos do filho de Haddad) e seguem em cargos comissionados em diversos órgãos, é de carreira dentro do Partido. Com eles um know-how de como conduzir reuniões com ‘controle social’ (termo vulgarizado pela Constituição de 1988 para definir a participação popular) e, sobretudo, de como chegar às resoluções importantes para o governo. Seja qual ele for. Às vezes, esse perfil técnico faz declarações políticas como no caso da ex-presidente da Funai, Maria Augusta Assurati, que deixou a Funai em meio a uma crise entre governo e ‘controle social’ sobre a demarcação do Território Indígena Munduruku.

Agora que o carnaval acabou, o Partido dos Trabalhadores vai precisar, pelo menos na cidade de São Paulo, conseguir mostrar que está disposto a fazer uma cidade mais humana e politizada. O anúncio da formação da chapa Haddad com Chalita (PMDB) para a sua reeleição, e a dificuldade de seguir com seriedade a CPI da SABESP na Câmara de Vereadores (que já teve inúmeras reuniões canceladas) não são bons sinais. Soma-se ainda os boatos que correm na Secretaria de Desenvolvimento Urbano e na Secretaria de Habitação que a onda de denúncias da ‘Operação Lava-Jato’ possa paralisar obras e contratos já firmados.

Após a quarta-feira de cinzas, talvez o recado no fim da manifestação do dia 6 de fevereiro desse ano tenha um sentido diferente quando, em 2013, manifestantes criticaram e xingaram a presidenta Dilma. Agora, são os movimentos sociais e ativistas digitais que passam a colocar o PT em cheque: Queima Haddad.

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Rui Massato Harayama

Rui Massato Harayama

Antropólogo, Colaborador da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. Ativista do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade.

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