O Coletivo

O Coletivo já existia mesmo antes de se oficializar naquela madrugada alta de setembro de 2013 quando decidimos – finalmente! – pelo nome, o último depois de uma lista com mais de mês de debates: Carranca! Só não sabíamos disso. Trabalho voluntário e não de graça, porque financiado do nosso próprio bolso e tempo. Autofinanciamento. É assim que este portal começa sua jornada aberta ao público leitor e a pesquisadores no universo da web em 29 de maio de 2014, com o resultado acumulado de nove meses de produção de conteúdo 100% colaborativo, até então postado exclusivamente na página da rede social do Coletivo – e a produção continua!

Somos Carrancas

Os Carrancas têm origem no encontro de almas e ideias vivido nas ruas do Rio de Janeiro nas jornadas de junho, a primavera carioca. Amizades feitas no gás. Cada um com sua ferramenta de trabalho, sua história e visão de mundo querendo consertar o Brasil, dar visibilidade às manifestações que tomaram o país desde junho de 2013, aquele fenômeno de explosão social que já começou reprimido tanto pelo Estado quanto pela mídia corporativa.

Nossa História

Fomos para a rua mostrar o que a gente via, mas era preciso potencializar o alcance das denúncias, trazer mais segurança pessoal a cada um de nós nas coberturas inicialmente feitas de modo individual. Coincidiu que aqueles pouco mais de dez que um dia viriam a fundar o Carranca buscassem a coletividade, e assim fomos todos ninjas: da primeira geração de Mídia Ninja no Rio de Janeiro que começou na cobertura dos embates na final da “Copa das Confederações”, seguiu com os protestos contra o massacre na Maré,  as primeiras bombas da história do Leblon, o “Casamento da Dona Baratinha”, o ataque ao hospital da Av. Pinheiro Machado e as (diversas) “Batalhas das Laranjeiras”, as gritas pelo desaparecimento de Amarildo, as primeiras ocupações – “Ocupa Cabral”, “Ocupa Lapa”, “Ocupa Gama Filho”, “Ocupa Câmara” – e as invasões e ocupações da Câmara de Vereadores e da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

Com toda uma nova mídia independente que a cada dia, felizmente, só crescia, fortalecemos nossa equipe, a audiência, ajudamos a buscar as imagens que defenderam manifestantes vítimas de forja de provas, detenções e prisões injustas; posicionamos nossas câmeras onde melhor se poderia ver e mostrar a violação de direitos; batalhamos jornalisticamente para fazer a informação – de dentro – chegar, e tudo isso enquanto o telejornal de maior audiência do país pedia desculpas dizendo, mais de uma vez, que errou.

Os primeiros de nossos últimos dias como ninjas começou com a descoberta, cada um a seu tempo – mas mais ou menos ao mesmo tempo – de que a Mídia Ninja, institucionalmente, não mais nos representava. A despedida foi aos poucos, não sem dor, e começou na cobertura da vinda do Papa e da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Frustrados com os processos de publicação de nossos materiais, cansados do discurso que não correspondia à prática, em busca de uma independência editorial e política e de um maior aprofundamento nos temas e contextualização dos acontecimentos, reconhecer que o Coletivo Carranca já existia em nós, que viríamos a fundá-lo, era questão de tempo. Com orgulho do que havíamos feito e absoluto respeito às escolhas e posicionamento dos colegas que já eram daquela equipe e dos novos que por lá ficaram, buscamos outro (nosso) caminho.

Lidamos no dia a dia, hoje, com o desafio das discussões por uma frase, uma foto, uma palavra, um posicionamento, um debate árduo e que parece sem fim entre a independência, o consenso e a liberdade de pensamento e expressão de cada um. Dá trabalho, mexe com o sentimento de rejeição e com ideologias, mas apesar de tão heterogêneos quanto a rua, de onde viemos, temos conseguido (ou, chegamos até aqui), às vezes com decisões tão disputadas que levaram à perda integral de algumas pautas, conteúdos e até companheiros.

Aos demais pioneiros deste projeto ficam nossa amizade e agradecimento por tudo que colaboraram e ainda colaboram, desde o primeiro passo. Hoje somos fotógrafos, advogados, jornalistas, economistas, cineastas, designers, programadores, produtores, criativos, estudantes, professores, filósofos, antropólogos, donas de casa, tradutores e pesquisadores com um sentimento de cidadania e justiça social em comum, aqui transmutado em conteúdo e memória desse tempo que vivemos pelas mãos, cérebros, emoção e indignação dos fundadores que compõem um núcleo editorial e dos tantos colaboradores que vêm se juntando a nós, do Brasil e da América do Sul.

De esquerda, apartidários, pelo fortalecimento da democracia ou pela anarquia, nossa meta, enquanto Coletivo, não é estar nas ruas ou entre os movimentos sociais como mais um grupo político em luta ou entre os com interesses de derrubar ou ascender ao poder A, B ou C. Se há um “ativismo” ou um “livrismo” em nossa mídia é a de tentar fazê-la independente, dar espaço às pautas ou às versões que não interessam a determinados grupos, fazer com que a informação e uma opinião crítica e contextualizada cheguem até a ponta, trazer a crônica e outros olhares do cenário, e que nosso conteúdo ajude pessoas na análise e reflexão dos fatos massificados de modo, maioria das vezes, diverso da realidade. Se tudo der errado, está aqui uma versão da História, a nossa, quiçá como os diários dos viajantes.

Para quem não entendeu, Carranca porque é brasileira, cara feia, força na proa para espantar os maus espíritos e garantir boa viagem.