Tropicarnavafagia


Fonte: https://pixabay.com/en/carnival-venice-masks-mask-of-venice-1803622/

Quem é do samba sabe de fé e carnaval. A Estação Primeira de Mangueira mergulhou nessa sabedoria e fechou com chave de ouro o segundo dia do desfile do grupo especial, na Sapucaí, abençoando a diversidade religiosa em um carnaval atípico, com problemas de segurança, regulação, fiscalização e flagrante desrespeito à ética, à cultura e à diversidade.

O PREFEITO NÃO FOI

O carnaval de 2017 vai ficar pra história, dentre vários fatores, por ser o do prefeito que deu calote na tradição, deixou as pessoas esperando e não foi nem ao Sambódromo nem para entregar a chave da cidade ao comando do Rei Momo. A gafe histórica, para dizer o mínimo, pode ser encarada como livramento e vista com outros olhos: a chave da cidade foi entregue por Dona Nilcemar Nogueira, atual Secretária Municipal da Cultura, mas criadora do Museu do Samba e neta de Cartola.

Puxando a corda do outro lado, nem só de pastor dando calote em festa pagã vive a alegria dos fundamentalistas: houve dois acidentes graves, com pelo menos 35 feridos. Coisa do demo. Nenhuma piada nisso, aguardemos os memes. Vivemos a Era da pós-verdade, a que traz a versão dos fatos conforme a vontade e o vento. Se quiser a sua, cate arquivos. Foi tudo ao vivo. Tem na internet. Esse texto é uma coletânea, com a minha.

SEM CACIQUE COBRA CORAL

Pra quem tem fé na ciência, a chuvinha refrescou, mesmo sem o tradicional convênio da prefeitura do Rio com a Fundação Cacique Cobra Coral, entidade esotérica que se apresenta em seu portal como a “luz que ilumina os fracos e confunde os poderosos”. Conhecida por divulgar-se capaz de controlar temporais e enchentes, a entidade tem décadas de tradição em garantir dias bons em datas festivas e de grandes eventos, como reveión e Rock in Rio, mas assim como o prefeito e o carnaval, também não é unanimidade. Dizem que Cobra Coral falhou no controle das chuvas que deflagraram a tragédia do morro do Bumba, em Niterói, e nas Olimpíadas do Rio, ano passado – quando, de fato, choveu muito. Mas não foi por isso que Crivella não renovou o contrato. Nem por economia em tempos de crise. Cobra Coral não cobrava em espécie, mas em divulgação. Ano passado, sem “mercado” com o poder público municipal do Rio, Cobra Coral se bandeou para o Dória, em São Paulo.

O bom fato é que só chuviscou no carnaval desse ano, aqui no Rio. Não tinha banheiro químico, os bares cobravam de 2 a 10 reais para ir ao banheiro, mas os bloquinhos de rua ficaram mais frescos e nada de temporal a desabar folião na Avenida. Poxa, então o prefeito estava certo! Talvez não. A médium Adelaide Scritori, herdeira do fundador da fundação e que diz incorporar o espírito da entidade Cacique Cobra Coral, o que tem o poder de controlar o tempo, disse semanas atrás que não abandonaria os cariocas, apesar do convênio com a prefeitura do Rio ter expirado.

Sorria. Será por pouco tempo. Urucubaca não define todo o ocorrido.

O PRIMEIRO CARRO

Um carro alegórico da Paraíso do Tuiuti, Tropicarnavagia é o seu nome, 3 toneladas desgovernadas, feriu cerca de 20 pessoas. Apesar da gravidade das vítimas, o desfile seguiu minutos após à tragédia. “Não havia mesmo outra saída para o carro, ele só poderia seguir em frente, e talvez parar a Sapucaí gerasse pânico”, me alegou uma colega velha de guerra. Mas como não questionar a humanidade sob a festa posta acima de tudo e a escola seguindo com as vítimas ainda no chão? Especulou-se também um óbito, não noticiado nem contestado, mas não há lista de vítimas e fala-se, com ênfase, apenas em três internados em estado grave: Maria de Lurdes de Moura, de 58 anos, no CTI  do Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio; Elizabeth Jofre, de 55 anos, também no Souza Aguiar, saiu da cirurgia e foi pro CTI; e Lúcia Regina de Melo Freitas, de 56 anos, lúcida, transferida para o Miguel Couto. Fotógrafa do site “Tititi do Samba”, ela sofreu fratura exposta na perna e traumatismo craniano leve. Segundo a secretaria de saúde ao UOL, inspira cuidados, mas o quadro é considerado estável.

Leia aqui entrevista exclusiva ao Coletivo Carranca da fotógrafa Cacau Fernandes, uma das vítimas do atropelamento do carro alegórico da Paraíso do Tuiuti.

TINTA FRESCA E PISTA MOLHADA

Profissionais experientes de Avenida me contaram que a pista esse ano estava recém-pintada. O chão ficou tão branquinho que quem regulou a câmera de um jeito no ensaio técnico ou na véspera, teve que reajustar. Domingo à noite a pista ainda era tinta fresca. Funcionários passaram um paninho para alisar pequenas bolhas do ‘meio-fio’ e uma espécie de aspirador ajudou a secar o meio da pista. Quem encostou saiu de mão branca. Solas de sapatos ficaram brancas. Pintaram para o grupo especial. Choveu muito de tarde, depois parou, e recomeçou nos fogos da Tuiuti.

FANFARRA DAS CREDENCIAIS

Seria simplório demais culpar o acidente por derrapagem, ainda bem que ninguém cogitou isso. A porta bandeira da Padre Miguel botou sua queda na conta do joelho e o presidente de carnaval da Liga o desvio do carro… na dos jornalistas. Disse que era muito jornalista. Alguns veteranos até consideram que há, de fato, um relevante aumento de credenciais para pequenos sites, com o advento das novas mídias, o que impacta no número de credenciados, mas também me alertam que há, sim, um mercado negro de credenciais, a maioria sem fins profissionais. Para este carnaval, custaram R$ 250 –, apesar do credenciamento ser por meio de uma comissão composta por Riotur, Liesa, Corpo de Bombeiros, entre outros órgãos, conforme um manual daqueles entregue em cima da hora e que ninguém lê.

ISSO, A GLOBO NÃO MOSTRA

Ainda nas primeiras horas da noite de domingo, pouco se sabia dos feridos e sequer o nome dos colegas jornalistas e demais atingidos. Restringiu-se, o apresentador Escobar, acompanhado do balançar concorde de cabeça de Fátima Bernardes, a ler uma nota oficial da escola de samba, afirmando o pronto atendimento e assistência total aos feridos. Grande Rio, Imperatriz Leopoldinense e Vila Isabel vieram na sequência. Salgueiro negou-se a entrar até que limpassem um óleo que caiu pela avenida – o óleo, seria da Vila. Jogaram serragem na pista para limpar.

Não acabou.

A rampa de acesso à sala de imprensa tinha uma falha por onde alguns enfiaram a perna. Somente no dia do grupo especial arrumaram. No caminho para torre de imprensa, uma água caía do camarote vizinho ao chão e placas de proteção (geralmente em amarelo e preto), que normalmente fazem os caminhos de acesso protegendo o caminhar e os fios dos equipamentos, não existia esse ano. Andou-se pelos fios mesmo. Uma das saídas de emergência do setor um, segundo outra fonte, estava com cadeado. O Setor um é onde fica a curva da armação, onde aconteceram os dois acidentes. O para raio da torre de imprensa, dias antes, ainda seria instalado.

O SEGUNDO CARRO

Cerca de 24 horas depois do acidente da Tuiuti, a parte superior de uma das estruturas da Unidos da Tijuca desabou, ferindo pelo menos 12 pessoas. O procedimento foi o mesmo: a festa não foi interrompida. O presidente da escola disse que a Tijuca não poderia parar para socorrer as vítimas.

Duas escolas antes, a União da Ilha teve dificuldades de manobra com um de seus carros, na entrada e na saída da avenida, chegando a encostar no vidro do estúdio da Rede Globo, instalado na dispersão, em claro descontrole do sistema de freios e na tentativa de abrir o máximo de espaço para a finalização de sua apresentação dentro do tempo, para não perder pontos na competição.

OPERAÇÃO “ABAFA”. THE SHOW MUST GO ON.

A cobertura jornalística da Rede Globo, emissora oficial da transmissão, assim como o presidente da Unidos da Tijuca e a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), foi muito criticada nas redes sociais por seu evidente compromisso institucional, o que teria comprometido o nível de independência da informação sobre a gravidade dos fatos e dos feridos.

Sobre privilegiar o prosseguimento do evento, “[…] a Tijuca merece cair só pela declaração horrenda do seu presidente”, postou no Facebook uma estudiosa do samba. “Tudo muito triste, mas o carnaval tem que continuar”, disse a apresentadora Leilane Neubarth do canal Globonews.

Sobre a perícia no ato do acidente, não houve. A reconstituição na quarta de cinzas com o carro alegórico da Tuiuti foi sem vítimas. A fotojornalista Cacau Fernandes, uma das que poderia ter ido para contribuir, confirma em entrevista ao Coletivo Carranca que o carro seguiu com as vítimas ainda no chão e que é sabido de todos que os carros são feitos de sucata. O produtor cultural Julio Barroso confirma: “Eu já trabalhei como aderecista de carro alegórico. Por baixo de todo o luxo dos carros, tem uma estrutura podre que a todo ano os torneiros mecânicos remendam com solda. E digo mais, a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) que o corpo de bombeiros exige para liberar esses carros é muita das vezes comprada de engenheiros e arquitetos que nunca foram num barracão. Os eixos desses carros são de ônibus fora de linha que as escolas transformam em carros alegóricos.”

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Sobre o carnaval 2017, leia também: http://coletivocarranca.cc/entrevista-cacau-fernandes/

Sobre o carnaval 2016: http://coletivocarranca.cc/bloco-de-gente-bonita/

Sobre o carnaval 2015: http://coletivocarranca.cc/bloco-das-mulheres-rodadas/

e http://coletivocarranca.cc/quem-nao-quer-ser-esquerda-de-camarote/

e http://coletivocarranca.cc/na-tela-da-tv-meio-desse-povo/

 

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Raquel Boechat

Raquel Boechat

Queria ser Lispector, mas acabou Jornalista, Roteirista, Radialista, Mestre-Arraes e Mergulhadora que não sabe nadar, Cineasta sem filme, Escritora sem livro publicado. Então voltou pra escola para ver se faz Direito. No meio disso criou 17 APAs e encarou uma pós em Arqueologia. Neste momento é a especialista Marketing Político que chutou o pau da barraca em 2013 e virou manifestante sem cachê.

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