VIOLÊNCIA É PRESSUPOSTO


Foto: Leonardo Coelho

A decisão de permanecer na ocupação decidida ontem em assembleia tinha um objetivo simples: ter um teto mesmo que por poucas horas. Chegou a ser cogitada a ideia de sair do prédio ainda durante a noite de ontem. O clima chegou a ficar tenso, mas prevaleceu a tese pela permanência até a ordem judicial de despejo. O consenso foi desocupar sem resistir para preservar a integridade física dos ocupantes, principalmente das crianças e das mulheres.

Poucos minutos depois das dez da manhã, os ocupantes começavam a se retirar do prédio Hilton Santos, no Flamengo, alguns policiais pareciam cães raivosos contidos em coleiras, um cordão de isolamento organizado por membros da Comissão de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica da Ordem dos Advogados do Brasil (CDHAJ-OAB) e da Defensoria Pública do Rio de Janeiro não deixava que os instintos violentos sobressaíssem à farda, quando restavam apenas dez ou quinze pessoas para sair, houve um foco de incêndio em papelões e colchões – facilmente contido pelo Corpo de Bombeiros ainda do lado de fora do prédio –, mas foi a senha para soltar os cachorros.

Dois ou três policiais romperam o cordão de isolamento com o pretexto de deixar os bombeiros entrarem. Mas em momento algum tiveram a entrada bloqueada e os policiais nem chegaram próximos do fogo. Pelo contrário, estavam por demais ocupados distribuindo sopapos e cacetadas. Um, em especial, se divertia com o brinquedinho novo, um enorme spray de pimenta que socializava com todos. Um pai com o filho no colo, vítima do destempero desse agente público, não admitiu, como não se deve admitir, esse tipo de postura. Reconheceu o policial como aquele que agredia com spray de pimenta todos que estivessem em sua volta. O comandante da operação admitiu que houve excesso por parte da tropa e mandou deter o que se comportou como um cão raivoso.

A postura do oficial em deter o comandado por violência descabida nos é uma novidade e nos enche de dúvidas: será motivada por usar spray desnecessariamente em momento que as contas do governo estadual não fecham e os recursos são cada vez mais escassos ou inexistentes, ou realmente é uma mudança de postura da tão desacreditada Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro?

O que podemos ver é que quando o tumulto começou os desocupantes que estavam já fora partiram para o confronto quando perceberam que alguns soldados atacavam os companheiros que ainda saíam. Do outro lado, a tropa revidava ataques do “inimigo”. Uma prática comum no cenário político atual: o bipartidarismo.

Por mais que o Estado invista na formação da polícia, o sentimento é de que alguma coisa de muito errada se faz nesses treinamentos. É muito difícil encontrar uma situação em que atuem fora de uma lógica do nós contra eles. E isso não é de hoje. No documentário “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles, no final da década de 1990, ela estava presente e foi muito bem captada. Uma década e meia depois, a mentalidade é a mesma.

O resultado dessa prática violenta, financiada com recursos públicos, foi onze pessoas feridas e quatro detidos, dentre eles o destemperado policial. Toda essa violência poderia ter sido evitada, mas nunca será enquanto a polícia mantiver o hábito de ir para qualquer ocorrência com sangue nos olhos, querendo matar ou agredir – dependendo da situação –, que nos faz com que jamais possamos tratar como mero erro humano qualquer ação desastrosa, pois é consequência de uma motivação equivocada.

Há a promessa da subsecretaria de Assistência Social e Descentralização da Gestão de se reunir amanhã (15) com a comissão de moradores e dar prioridade ao caso deles, já que agora são sem teto. Participará da reunião também subsecretária Nelma de Azeredo, o presidente da CDHAJ-OAB, Marcelo Chalreo e a Defensoria Pública. A secretaria municipal de habitação também foi convocada. Até a resolução, cada mulher, homem e criança que não tem lugar para morar estarão entregues à própria sorte. Certo é que não irão para o abrigo oferecido em Santa Cruz, lugar degradado e desumano. Muitos já passaram por esses abrigos da prefeitura e não querem voltar para lá nunca mais. Querem o que nem se devia ser necessário pedir: políticas públicas que atendam ao povo e não a serviço do capital privado.

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Otávio Brum

Otávio Brum

Otávio é esquerdo, apesar de destro. Também é jornalista e especialista em Mercado Editorial, Literatura Brasileira e Porrinha.

Leonardo Soares Coelho

Leonardo Soares Coelho

Fotógrafo e jornalista

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